terça-feira, 30 de outubro de 2012

Podemos racionar os cuidados de saúde?




Suponha que tem um cancro galopante num rim. Vai matá-lo,  provavelmente no próximo ano ou no seguinte. Uma droga chamada Sutent abranda a disseminação do cancro e pode dar-lhe seis meses extra de sobrevida, mas custa 45 mil dólares. Valerão estes meses a mais tal valor?

Começa assim um artigo do filósofo Peter Singer, dado à estampa no New York Times em 15 de Julho de 2009 e intitulado Porque Devemos Racionar Os Cuidados de Saúde, no qual o especialista de Bioética Aplicada reflecte sobre os custos destes cuidados e as questões éticas atinentes ao seu virtual racionamento.
Singer concita-nos a pensar esta questão à luz da consabida anedota em que um homem pergunta a uma mulher se aceita ter sexo com ele por um milhão de dólares. Ela reflecte durante algum tempo e aceita a proposta. “Então”, continua ele, “e se for por cinquenta dólares?” Indignada, a mulher exclama: “ Mas que tipo de mulher é que pensa que eu sou?” Ele responde: “sobre isso já estamos conversados, agora só estamos a negociar o preço.” Como diz Singer, à resposta do homem subjaz a a assumpção principial de que, se a mulher está disponível para se vender por um qualquer preço e aceita considerar monetariamente a sua honra, a mulher é uma prostituta imoral. Advoga o autor que à forma como encaramos o racionamento nos cuidados de saúde subjaz uma assumpção similar - a de que é imoral aplicar considerações monetárias quando se trata de salvar vidas. Pergunta Singer: é esta assumpção sustentável e realista?


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Coimbrinha/Série A




Três notícias azadas para os coimbrinhas melómanos, que juram e trejuram ter coimbra uma vocação musical, isto é, um chamamento musical, para além, é claro, do fadinho, coimbrinho, choradinho.

Continua a deriva eclética do “Venham Mais Quintas”, no Conservatório de Música de Coimbra (na última Quinta, Júlio Resende demonstrou o prodígio da suas capacidades improvisadoras e o porquê da sua pertença ao Conselho Superior do Jazz Mundial; sem deslustre e regateio de aplausos, é claro, para a competência técnica vocal de Vânia Fernandes, porque é grande o merecimento).

A cena musical coimbrinha foi também ougada pela notícia da aquisição do trespasse do Salão Brasil pelo Jazz ao Centro Clube (JACC), que pretende, doravante, fazer uma programação regular e apostar fortemente na música jazz (e não só).

Como coda, a vigésima edição do Festival de Música de Coimbra. Vinte e um concertos, de António Pinho Vargas, a 27 de Outubro, ao Ensemble de Palhetas Duplas e a pianista Margarida Prates, no dia 11 de Novembro, para relembrar os coimbrinhas que sine musica nulla vita.

Ora, tomai e ouvi todos.

domingo, 28 de outubro de 2012

Eleições americanas: "Obama blows, but Aimee Mann is the best"



Aimee Mann performed for President Obama and First lady on May 11th 2011 for Poetry Night at the White House. Aimee was joined by a prestigious cast of poets, musicians and artists to celebrate the art of American poetry. Additional artists' highlighting the significant influence of poetry on American culture included Billy Collins, Common, Rita Dove, Kenneth Goldsmith, Alison Knowles, Jill Scott, and Steve Martin and Steep Canyon Rangers.

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sábado, 27 de outubro de 2012

Prof.



Um não sabe a diferença entre uma linha vertical e uma linha horizontal. A deslado, um outro tenteia a leitura em ritmo muito abaixo do intervalo médio esperado para o seu nível de escolaridade e omite, troca e aduz letras, em passinhar fonético extenuante. São um sobejo de gente com dezasseis, dezassete anos, para o qual a escola é uma prisão e o mau comportamento a rebelião possível, a evasão infrene (todos os lugares podem ser prisões se não desejarmos lá estar, dizia Epicteto).
Daniel Pennac diria que nunca descobrirão as bem-aventuranças da leitura, graças à qual o esforço devém um prazer. Nunca lerão como acto de resistência, recusa e oposição. Nunca lerão contra e não saberão resistir aos liames das contingências. Quais? Todas, escreve Pennac:
- Sociais
- Profissionais
- Psicológicas;
- Afectivas;
- Climáticas;
- Familiares;
- Domésticas;
- Gregárias;
- Patológicas;
- Pecuniárias;
- Ideológicas;
- Culturais;
- Umbilicais.
Porque, como diz o autor de Comme un Roman, a leitura bem-feita salva de tudo, inclusive de nós próprios.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Os profetas que fazem pouco caso do futuro



Enquanto alguns economistas vaticinam a morte do sistema actual de segurança social, o governo prepara-se para diminuir as prestações sociais. Na verdade, tal vaticínio parece ser mais uma mertoniana self-fulfilling prophecy dos economistas liberais que recusam a visão solidarista do Estado Social Europeu: os áugures, enleados na dialéctica crença-comportamento, realizam performativamente o que predizem. Mas não há profecia sem teleologia, telos ou fim último: os pregadores do self help, herdeiros da crença calvinista segundo a qual Deus ajuda aqueles que se ajudam a si próprios, clamam que só uma minoria de desvalidos merece apoio (deserving poors), e, afiança Bourdieu, estão empenhados em fazer da insegurança social um princípio positivo de organização colectiva, capaz de produzir agentes económicos mais eficazes e produtivos. O que prova o que todos sabemos: há um escol de profetas que não depende do futuro.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Os Mansos Herdarão a Terra (Salmos 37:11)



D. José Policarpo não gosta do profanum vulgus contestando, indo para grandes manifestações e marchas de protesto. Ao fazer uso da sabedoria prudencial longeva da Igreja, crê apartar o político do religioso e crê não meter prego nem estopa nos conflitos que lavram na sociedade portuguesa. Mas, em verdade vos digo, ao afirmar que o que está a acontecer é uma corrosão da harmonia democrática, da nossa constituição e do nosso sistema constitucional, Policarpo está a fazer a useira e vezeira má política do quietismo ideológico religioso.
A igreja não faz política; cumplicia com ela. A igreja não brada e contende por justiça; arremeda a caridade (não se dê por caridade o que é devido por justiça). A igreja não tem uma práxis política, uma teoria da redenção social; toda a redenção é teológico-metafísica e só os mansos herdarão a terra.

Li recentemente que o ministro das Finanças teria tentado acabar com as isenções do pagamento do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) dos templos e edifícios destinados à formação e à pastoral, mas a Conferência Episcopal Portuguesa, asinha, asinha, invocou a Concordata e eximiu-se ao pagamento.
Em boa verdade, a posição da Conferência Episcopal é concorde com a bíblica questão do tributo, de Mateus 22:21. Inquirida sobre se é lícito pagar o tributo ao Gaspar, a Conferência Episcopal, imperiosa, clama que lhe tragam a Concordata e inquire de quem é a inscrição. Respondem-lhe que de César, e a Conferência, alegórica e salomónica, ordena que se dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, deixando um terceiro excluído, o povoléu, a desembolsar para ambos.  Mas, é claro, o povoléu, manso, herdará a terra.