Ao cuidado de Isabel Jonet, que antepõe a caridade à justiça, pois jamais perceberá
que é necessário ser justo antes de ser generoso, e ignora que um verdadeiro cristão
pode dar por caridade o que é devido por justiça, mas nunca o fará sem pudor e
esperança: o pudor de não haver justiça, a esperança de que ela possa ser
feita.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Diário dos Perplexos/Folk Sociology
Quando Isabel Jonet se adentra pela Folk Sociology, até os seus
indefectíveis se quedam em estupor pânico: ora são os imigrantes que não têm vontade de trabalhar, porque vêm a fugir da
guerra nos seus países; ora são os
gregos que adoram discutir e dificilmente conseguem chegar a uma solução;
ora são os alemães, que são mais práticos
e cumprem as decisões; ora a
solidariedade tem a ver com direitos adquiridos; ora a caridade é melhor do que a
solidariedade, porque nos permite ir um a um. Ninguém aguenta tanto esprit
de finesse.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Da Servidão Voluntária
A rede social Facebook ultrapassou mil milhões de
utilizadores. Uma rede que, tomando de empréstimo, desabusadamente, o título de um livro famoso
de Erving Goffman, induz uma espécie de apresentação
do eu na vida quotidiana em que o aparecer expressivo de cada persona coloca as momentosas questões
sobre o respeito da vida privada e o uso e abuso dos dados pessoais.
A revista
Philosophie de Outubro invoca a sageza suspicaz do Discours de la Servitude Volontaire e coloca La Boétie a
interpelar esse universo multitudinário:
Esse que tanto vos humilha tem só
dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre
os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele
tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes.
Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia se vós não lhos désseis?
sábado, 8 de dezembro de 2012
15 minutos
Pratos destradicionalizados,
descontextualizados, world fusion, que
combinam produtos e sabores à margem das tradições e atavismos papilares. Pratos
extravagantes, surpreendentes, fantasiosos, que transformam a manducação em
diversão e que os anglo-saxónicos nomeiam sapidamente como eatertainment. Receitas equilibradas,
nutritivas, criativas, informais e divertidas, mas sem cabidela para o epicurismo gargantuesco das grandes
comezainas e comilanças. A cozinha já não é l'art
de maîtriser le feu e a lentidão deixou de ser uma virtude culinária. Lipovetsky
diria que esta luminária cumplicia na redução da alimentação à forma-moda. Bom proveito.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Prof.
Já aqui
escrevemos bastamente sobre Stephen Ball e a sujeição dos professores aos terrores da performatividade (relatórios
atrás de relatórios, actas atrás de actas, justificações atrás de
justificações, avaliações atrás de avaliações, evidências atrás
de evidências). A designada avaliação do desempenho é um destes terrores da performatividade que, usando
as palavras do filósofo e crítico literário António Guerreiro, em artigo
publicado no Expresso-Atual de 11-08-2012, longe de ser uma prática
metodológica/epistemológica sofisticada relevando de uma ciência, é um mecanismo puramente gestionário ao serviço de uma ideologia e de
um aparelho burocrático e administrativo.
Leiamos o
seguinte texto do professor João Ruivo que, malgrado verberar a pretensão
obscena do Ministério de querer transformar professores comuns em professores
avaliadores (os primeiros, treinados na avaliação dos conhecimentos discentes,
os segundos, obrigados a avaliar desempenhos docentes, pelo que confundir a
tarefa dos dois é confundir a Estrada da Beira com a beira da estrada), parece
querer definir as condições de possibilidade da avaliação dos professores e ter
implícita a ideia da redução do desempenho docente a índices rigorosamente mensuráveis:
Para avaliar professores requerem-se
características pessoais e profissionais especiais, para além de uma formação
especializada e de centenas de horas de treino, dedicadas à observação de
classes e ao registo e interpretação dos incidentes críticos aí prognosticados.
Cuidado com as ratoeiras! Quem foi preparado para avaliar alunos não está,
apenas pelo exercício dessa função, automaticamente preparado para avaliar os
seus colegas…
(…) É necessário que domine com rigor
as técnicas de registo e de observação de aulas, conheça as metodologias de
treino de competências, os procedimentos de planeamento curricular, e as
estratégias de promoção da reflexão crítica sobre o trabalho efectuado.
O artigo
refere as técnicas de registo e de observação de aulas, as metodologias de treino de competências, os procedimentos de planeamento
curricular, como se esta utensilagem, apesar da sua vagueza assim expressa no ideolecto sisudo
das Ciências da Educação, fosse interna a um saber já validado e isento de
ideologia. Na verdade, não é. Segundo António Guerreiro no artigo supracitado,
referindo-se à rigorosíssima avaliação das fundações feita pelo governo, os avaliadores
medindo, calculando, numerando e
comparando, imaginam-se a fazer um trabalho científico. Tão
científico que nenhuma décima escapa à medição apuradíssima. Na verdade,
não estão. E conclui António Guerreiro:
Os avaliadores são uma seita e a sua mística
é a ordem quantitativa pela qual tudo acede a um estado estatístico e entra num
ranking. Mas como sabem que o seu trabalho não é interno a um saber, eles
precisam que os avaliados (que, por sua vez, são os avaliadores dos outros)
lhes outorguem legitimidade, que a creditação seja ao mesmo tempo coerciva e
consentida. Esse consentimento tácito é obtido através da autoavaliação que os
avaliados são convidados a fazer e que lembre o ritual da autocrítica que era
imposto nos regimes comunistas. Pela autoavaliação, o sujeito avaliado confessa
os seus pecados, incrimina-se a si próprio, denuncia as suas inclinações menos
produtivas. Tudo isso para responder às eternas injunções da burocracia e
também para assumir uma cumplicidade estratégica com os avaliadores em posição
de mestres.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Prof.
Grupos inteiros
de questões sobrelevadas. Caligrafia ininteligível. Disgrafias e disortografias
várias. Um arremedo de sintaxe. Vinte testes, dezoito negativas. Só que aqui
não opera o hegeliano poder e trabalho do negativo. Todas estas negativas, apesar do seu potencial narrativo sobre o que se estudou e não estudou, o que não se
leu e não foi dado a ler, o que não se viu e não foi dado a ver, o que não se ouviu
e não foi dado a ouvir, são o sobejo da provação da privação. Mesmo dela sobeja
sempre alguma coisa. De modo que notícias como esta, para além de nos revelarem
a provação da privação, são o sinal instante do impoder da escola.
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