quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Diário Dos Perplexos/George Orwell Rule


Ora aí está, urbi et orbi, não a Chatham House Rule, mas a George Orwell Rule: Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Tudo o resto é publicidade.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Erotic Flash Fiction


Depois de a enfermeira lhe ter pegado no pénis defunctus e ter introduzido a sonda na uretra; depois de ter olhado a sua boca purpurina e ter pensado numa frase da Agustina – todos os orifícios existem para dar prazer -, as coisas correram muito melhor.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Prof.


Pensar nas tarefas e nos vocábulos que as designam. Um arrepio mental somatizado nas Vértebras sacrais. Priorizar (horror e pavor!) o trabalho cria o primeiro impulso e quase gera a auto-satisfação do dever cumprido. Apre!: duas actas (o relato verosímil do inverosímil quotidiano da escola); dois relatórios (a burocracia, labor de Sísifo: empurrar a pedra até ao topo, vê-la rolar, recomeçar); um plano de educação sexual (É o seculo XX/É o sexo vintage//A nossa doença, a nossa militância – o Reininho de Freud & Ana); o catar das faltas e o seu cômputo em aplicação informática com tanto escaninho como um contador manuelino (a tecnognose das TIC a fagocitar a escrita, a leitura e a sua potentia crítica).  Depois, ajusto as mangas-de-alpaca e registo: João, dez faltas…

domingo, 13 de janeiro de 2013

Diário dos Perplexos/ Simmel e a Chanel Classic 2.55


Filipa Xavier é culpada por ter trocado, com o maneirismo diccional de uma certa upper class, o essencial pelo acessório, um acessório, uma mala Chanel Classic 2.55 - o modelo original desenhado por Coco Chanel. Simmel diria que Filipa suplementou a insignificância da pessoa, a sua incapacidade de, só por si mesma, individualizar a existência, através da incorporação num círculo caracterizado justamente pela moda, pelo acessório. Quem nunca trocou o essencial pelo acessório e expôs a sua própria insignificância que atire a primeira pedra. Da ordem do suplemento, do supérfluo e do desejo, na moda também opera uma das lógicas do inessencial, e o inessencial debate-se sempre com a ética e com a estética.
E atenção à litania do austero: não vivas acima das tuas possibilidades; não desejes acima das tuas possibilidades; não sonhes acima das tuas possibilidades.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Diário dos Perplexos/A Prestidigitação Numérica


Glosemos de novo Disraeli: há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras danadas e estatísticas. E quando estas últimas são usadas como um ébrio usa um poste de iluminação - para apoio e não para obter luz - ou como um mero pontilhismo digital, como é este caso e foi o caso do estatístico que se afogou no lago que tinha uma profundidade média de um metro, estamos entregues à mais ardilosa arte da prestidigitação – a prestidigitação numérica.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Musicofilias/The Bryan Ferry Orchestra




Na revista Uncut, a album review do disco The Jazz Age, da The Bryan Ferry Orchestra, não augurava nada de promissor: Favourite songs from the Roxy man's past, played by jazz vets and cut in crackly mono… Mas depois de ouvir Love Is The Drug ou Slave To Love no estilo de Fletcher Henderson’s orchestra entertaining revellers at the ballroom of the Club Alabam in New York in 1922, o disco que parecia ser só mais uma bizarria retrómana de 2012 logra alcançar coisa luzida e dificultosa - acrescentar mais lirismo às canções de Ferry e dos Roxy Music.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Dicionário do mofino 58


Vinho, s.m. Criatura jovial gerada pela fermentação do sumo de uva, que conta já oito mil anos de história e igual tempo de peripécias; está na origem do primevo género dramático, a bebédia, do qual ninguém, estranhamente, se parece lembrar muito bem (à luz da poética clássica, na tragédia, a peripécia é a passagem da felicidade para a infelicidade, na bebédia, amiúde o contrário); no seu Il Vino – Un Discorso Sui Suoi Effetti Psicologici, e na sua  lustrosa prosa novecentista, De Amicis descreve como o bebedor de vinho começa por usar fastidiosos períodos com um comprimento ciceroniano ao princípio, cheios de comentários e achegas, e que se vão pouco a pouco desmoronando e desfazendo, até se reduzirem ao estilo picado dos oradores asmáticos, indubitavelmente mais persuasivo; o segundo sangue da humanidade nos dias de abstemia.