segunda-feira, 29 de abril de 2013

Prof.


No Cinco Reis de Gente, com a mestria useira e vezeira, Aquilino apresenta-nos o Padre Serrão, mestraço de latinidades e propedeuta dos filhos de labregos ricos que não sabiam o que fazer ao dinheiro e agradava à sua prosápia ter um filho tonsurado. De ordinário, escreve Aquilino, e como estes efebos, ásperos e bravios, toscanejassem de tédio a silabar o rosário das declinações, o padre Serrão despedia-os com este remoque terminativo: Outra vida, amigo, outra vida! Nesta derrancas-me o sangue, gastas o baguinho a teu pai e ficas burro como dantes.
Volvido um século de Psicologias e Pedagogias várias, novéis e diferenciais, o remoque do Padre Serrão devia continuar a ser um começo de vida.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Arte, Política e Verdade




Artista cria “Rua Isaltino Morais  - corrupto, criminoso, político"

 A Rua 7 de Junho de 1759 em Oeiras foi “rebatizada” para “Rua Isaltino Morais (corrupto, criminoso, político) ”. A ideia partiu de um artista urbano que utiliza a azulejaria tradicional portuguesa como forma de expressão e que já havia mudado o nome do Largo de Mompilher, no Porto, para “José Sócrates (mentiroso, corrupto, incompetente, primeiro-ministro de Portugal 2005-2011).

Sapo/Notícias

quarta-feira, 20 de março de 2013

Dicionário do Mofino 11


Felicidade, s.f. A agradável sensação provocada pela contemplação da miséria alheia, segundo Bierce, ou da Gloria Dei, segundo o Doutor Angélico; A acreditar em Santo Agostinho, todos os homens querem ser felizes (beatos esse omnes homines velle, De Civitate Dei 10.1.1), o que explica a impossibilidade de todos o podermos ser, mas não explica as elevadas taxas de nupcialidade; lapso fruste de alheamento mental, no qual nos esquecemos do fisco, dos compromissos maritais e da beatitude eterna; estado patético daquele que crê ser tudo o que não é, ter tudo o que não tem; sumo bem imaterial, bem para além das minhas posses; para Stuart Mill o máximo prazer para o maior número possível de seres humanos, o que soa bem mas é difícil de calcular.

terça-feira, 19 de março de 2013

Diário dos Perplexos/ Argument From Design


Depois da teodiceia ininteligível do Diário de um Deus Criacionista, de Álvaro Santos Pereira, outrora docente de economia na Universidade de York (volta Álvaro, estás perdoado!) e ministro vigente do ministério de uma ciência do impreciso, a economia, eis outro ministro a parodiar o argument from design  -  Victor Gaspar.  O Intelligent Design é ciência da treta, já o Mentecapt Design

domingo, 10 de março de 2013

Prof.


Um artigo do filósofo José Gil na Visão. Pensar, também, sobre a aniquilação e devastação que assola a Escola e os professores. Alguns, os poucos que ainda lêem e estudam, lê-lo-ão imersos nos terrores da performatividade - relatórios atrás de relatórios, actas atrás de actas, justificações atrás de justificações, avaliações atrás de avaliações, evidências atrás de evidências – e espantar-se-ão com a fereza da palavra massacre. Mas já sabíamos: a escola é um agente de depressão maciça.

O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
                                                                                               
                                                                                                        José Gil, Visão

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sex Files/ O Negro Eros


No High Fidelity, Nick Hornby coloca Bob Flemming, personagem com uma vida tumultuada pelo ordálio do sexo e do desejo, a idear as seguintes perguntas para fazer ao pai: Pai, alguma vez tiveste de te preocupar com o orgasmo feminino tanto na sua forma clitoriana ou na sua (possivelmente mítica) forma vaginal? Sabes verdadeiramente o que é o orgasmo? E o ponto G? O que é que significava “ser bom na cama” em 1955, se é que significava alguma coisa? Quando é que o sexo oral foi importado para a Grã-Bretanha? Tens inveja da minha vida sexual, ou parece-te tudo uma carga de trabalhos? Alguma vez te preocupaste com o tempo que te aguentavas, ou não pensavas nesse tipo de coisas na altura? Não estás contente por nunca teres tido de comprar livros de comida vegetariana como primeiro passo para saltar para cima de alguém? Não estás contente por nunca teres precisado de ouvir “Tu podes ser óptimo, mas limpas a sanita?”
A crer em Platão, chegado aos oitenta Sófocles regozijou-se por se ter quitado da servidão raivosa e selvagem ao negro Eros. Depois tornou-se senhor de si e morreu.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Prof.


Projecto de Educação Sexual. O desafio da educação sexual nas escolas: como falar de sexo sem falar de sexo? O desafecto discente pelos longuíssimos preliminares do discurso dos afectos e da reprodução: já ouvimos esse paleio vinte vezes!, diz fulano; é sempre a mesma coisa!, assente sicrano; e o resto?, remoe beltrano. O resto pode ser literatura.

Ms. Amante é professora de Biologia. Ms. Amante diz que os humanos gostam de fingir que a biologia não se aplica a eles.
As suas unhas são do mesmo vermelho que o batôn. Tem ancas largas.
Tanto trabalho para criar laços, e o resultado? Trinta por cento das crias num dado ninho são prole de outro macho, e não são as mães-pássaro as únicas a portar-se mal. As fêmeas do coelho, do alce e do esquilo também petiscam às escondidas, e não apenas com o sexo oposto.
Ms. Amante é casada. Nunca fala do marido.
Há uma hormona chamada oxitocina que inspira a vontade de abraçar. E não só. A fêmea de um rato em ovulação que receba uma dose suplementar de oxitocina esforça-se muito mais para que os machos a montem. Enquanto nos informa disto, Ms. Amante enuncia as palavras. A sua boca faz um O quando diz "montem".
O capítulo das plantas vasculares parece ser quase todo sobre flores. O macho da vespa vê a fêmea dos seus sonhos e copula com ela. Depois vê a irmã - ainda melhor! - e repete a dose. Na realidade, são duas orquídeas. As flores enganaram-no duas vezes. Foi usado, descartado e obrigado a regressar a casa sozinho. E os estudantes perguntam, Será que ele quer saber? Oficialmente, esta especulação não faz parte do currículo. Ms.Amante não responde.
A antera polinífera. O pistilo pegajoso. Quando Ms. Amante os descreve, todos os alunos, rapazes e raparigas, querem aprender mais, mais, mais.»

                                                                                 Pequenos Mistérios - Bruce Holland Rogers