quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Perspectivismo Constitucional

Não há factos, só interpretações, escreveu Nietzsche com desaforo aforístico; não há verdade, só interpretações, glosou o perspectivismo filosófico do século passado; não há constituição, só interpretações, declarou o primeiro-ministro após rememorar as vinte cinco técnicas de colocação de voz e franzir gravemente a terceira dobra cutânea da fronte.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Professores, proletários, missionários

O diagnóstico é certeiro: …o professor, obrigado a responder a novos objectivos da escola que já nada têm que ver com a sua missão original (objectivos cada vez mais políticos: retardar a entrada dos jovens na vida activa, corrigir as desigualdades sociais, substituir a educação parental, policiar os costumes, etc.), teve que começar a enfrentar tarefas policiais, psico-sociais e de animação. Mas António Guerreiro prossegue, percuciente e sagaz ao analisar a proletarização docente e ao ver nela uma paulatina perda de autonomia, até ao ponto em que a actividade do professor deixa de ser uma actividade intelectual.
Quem frequenta as salas de professores ou fala com eles sabe sobre o que escreve António Guerreiro: o assoberbamento burocrático – os professores transmudados em amanuenses e mangas-de-alpaca; a falta de tempo para ler e pensar; os nefandos terrores da performatividade - relatórios atrás de relatórios, actas atrás de actas, justificações atrás de justificações, avaliações atrás de avaliações, evidências atrás de evidências; a sobreocupação horária e a sua extensão à sorrelfa por via da Internet e do trabalho imaterial.

Devido à sua proletarização, os professores foram transformados em espíritos incuriosos, leitores relapsos e intelectualmente alheados, e isso faz com que a parole professorale seja, hoje, proferida por uma voz sem eco, flatus vocis.


Professores, proletários, missionários

Em 1971, Roland Barthes escreveu, para a revista Tel Quel, um texto a que deu o título: Escritores, Intelectuais, Professores. Por si só, tal título mostra como os professores foram entretanto deslocados e já não pertencem a esse mundo de outrora. Eles surgiam então ao lado de outras duas respeitáveis classes (que, aliás, também já não têm o mesmo estatuto), enquanto detentores de uma autoridade adquirida automaticamente pela parole professorale. Essa modalidade de discurso, herdeira da Retórica e dotada de uma autoridade moral conferida pelo saber, não podia sobreviver às novas condições que retiraram o saber da esfera exclusiva do cânone escolar e em que o professor, obrigado a responder a novos objectivos da escola que já nada têm que ver com a sua missão original (objectivos cada vez mais políticos: retardar a entrada dos jovens na vida activa, corrigir as desigualdades sociais, substituir a educação parental, policiar os costumes, etc.), teve que começar a enfrentar tarefas policiais, psico-sociais e de animação. A fortuna de um actual ministro que chegou ao seu posto à custa da denúncia do “eduquês” deve-se ao facto de, com esse chavão, ele apontar para um desvio da escola em relação a essa missão original que, presume-se, ele achava que podia e devia ser restaurada. Entretanto, em sentido contrário a uma tal missão, os professores têm sido submetidos – sem tréguas e desde há muitos anos – ao tratamento mais ignóbil a que uma classe profissional pode estar sujeita. Se quisermos utilizar um termo genérico para designar o que lhes foi infligido (para além das “sevícias” – da parte dos alunos, da parte dos pais – a que ficaram expostos a partir do momento em que lhes foi retirado todo o domínio) temos de falar de uma progressiva, sistemática e programada proletarização. Em que é que ela consiste? Numa total perda de autonomia, até ao ponto em que a actividade do professor deixou de ser uma actividade intelectual. A partir desse momento, a autoridade do professor – que, aliás, para existir é necessário que esteja integrada num sistema que a detenha - ficou completamente arruinada. O sinal mais óbvio dessa proletarização – aquele onde ela é exibida pela máquina governamental com uma clara intenção de humilhação – é o horário de trabalho. Dantes, o trabalho do professor compreendia o tempo controlado (o tempo lectivo) e o tempo autónomo, que ninguém conseguia avaliar exactamente a quanto correspondia – dependia do treino, dos escrúpulos, da responsabilidade e do sentido de missão do próprio professor. Daí, a ideia tão repetida de que os professores gozam (gozavam) de um horário privilegiado. Agora, não só o tempo de trabalho controlado aumentou bastante, como aquilo que deveria ser tido por conta de trabalho autónomo perdeu esse estatuto porque o Ministério o passou a contabilizar no horário oficial: trinta e cinco horas de trabalho na escola, mais cinco horas de trabalho em casa. Quem alguma vez foi professor sabe bem que essas cinco horas semanais estão longe de ser suficientes. Mas pior do que fazer horas extraordinárias que não são pagas é sentir que até o pouco que resta aos professores de tempo autónomo entra na contagem diabólica do tempo controlado. O horário dos professores pode até não ter efectivamente aumentado. Mas, em termos simbólicos, chegou-se à estação terminal que diz: proletarização.

António Guerreiro

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Políticas da Linguagem/Requalificação


Quando a atmosfera é má, escreveu Orwell em Politics and the English Language, a linguagem não fica indemne: quando há um hiato entre os nossos verdadeiros objectivos e os objectivos declarados, voltamo-nos como que instintivamente para as palavras longas e para as expressões gastas, como um choco a largar tinta.
No seu tempo, escreveu, o discurso e a escrita política eram em grande medida a defesa do indefensável. Na sua opinião, factos históricos como a continuidade do domínio britânico na Índia, as purgas e deportações russas, o bombardeamento atómico do Japão podiam ser defendidos politicamente, mas apenas com argumentos que eram demasiado brutais para que a maior parte das pessoas os assumisse, e que não combinam bem com os objectivos professados pelos partidos políticos. Assim, afirma Orwell, a linguagem política estaria inçada de eufemismos, petições de princípio e pura vagueza turva. Vejamos os exemplos de Orwell:
Povoações indefesas são bombardeadas por aviões, os habitantes expulsos para o campo, o gado varrido a metralhadora, as cabanas postas a arder com balas incendiárias: a isto chama-se pacificação. Rouba-se as quintas a milhões de camponeses que são obrigados a caminhar penosamente pelas estradas com não mais do que o que conseguem carregar: a isto chama-se transferência da população ou rectificação das fronteiras. As pessoas são presas durante anos sem julgamento, ou levam tiros na nuca, ou são enviadas para morrer de escorbuto em explorações florestais no Árctico: a isto chama-se eliminação de elementos instáveis.
Estabeleça-se uma analogia prospectiva dos exemplos de Orwell com a pastosa retórica do ordoliberalismo indígena: na saúde, os utentes experimentam a provação da desmesura das taxas moderadoras e a privação de serviços: a isto chama-se Racionalização na prestação de cuidados; a pretexto da crise da dívida soberana, elevam-se impostos e mingam-se salários, depauperando a população a níveis crudelíssimos: a isto chama-se Ajustamento; o governo intenta empochar quatro mil milhões de euros em impostos, esbulhar remunerações e extinguir serviços: a isto chamar-se-á Refundação. O Ministério da Educação pretende remeter ao inferno do despedimento milhares de professores, depois de os fazer passar pelo purgatório da mobilidade: a isto chamar-se-á Requalificação.
Dirá Orwell que esta fraseologia é necessária quando se quer dar nome às coisas sem chamar as imagens mentais que lhes correspondem, mas nós sabemos que a palavra Requalificação é a palavra longa de um choco a largar tinta.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Diário dos Perplexos/Self Made Boy



No L'Euphorie Perpetuelle - Essai Sur Le Devoir De Bonheur, escreveu Pascal Bruckner:
Uma das perversidades do desemprego é talvez ter emprestado ao trabalho, mesmo ao mais estupidificante, uma aura que já tinha perdido durante os anos de prosperidade. Obcecadas pelo pleno emprego, as nossas sociedades pretendem ocupar as pessoas a todo o custo e celebram a escravatura salarial sem se interrogarem sobre a qualidade dessa ocupação. Ao ponto de a sobrecarga de trabalho se ter tornado um sinal ostentatório de potência; e ainda que as classes laboriosas aspirem à ociosidade, as classes ditas ociosas tornam-se laboriosas, fixando-se para si próprias semanas de 60 a 80 horas e exibindo o excesso de trabalho como índice da sua superioridade.
Não admira, pois, que esta aura do trabalho - ainda que muito perto da escravidão e longíssimo do trabalho como construção de si e do mundo, de Aristóteles, Marx ou Arendt - ofusque os mais lúcidos. O que temos perante nós, diria Arendt, é o pior que podemos imaginar: a perspectiva de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, de trabalhadores privados da única actividade que lhes resta. Isto explicará que um símplice remoque de um self made boy sobre o ordenado mínimo e o desemprego tenha tido tanta ventura retórica.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Diário dos Perplexos/Index Librorum Prohibitorum


Isto é muito perigoso! Pôr o gentio ignaro a ler textos canónicos com desabalada soltura exegética e hermenêutica é imprudente. Sabe-o a Igreja Católica, que indexicou as Escrituras quando o poviléu desatou a lê-las nas línguas vernáculas; sabe-o a prelatura da Opus Dei, que arrenegou recentemente 33 573 livros; ressabe-o o deputado Fernando Negrão quando, em burrical declaração, veio dizer que a Constituição da República tem uma forte carga ideológica, pelo que os juvenis devem procrastinar a sua leitura para a frequência doutoral do curso de Direito; ignoro-o eu que, todos os anos e desavisado, a leio e tresleio com os alunos do terceiro ciclo e secundário.
Irra, que são burros!

Teologia Política/Cavaco, o miraculado


Quem faz algumas leituras sortidas sobre filosofia política sabe que os conceitos seminais da política moderna são versões secularizadas de ancestrais conceitos teológicos, e que a oikonomia teológica da salvação é a matriz da economia moderna. Mas invocar a inspiração da Virgem de Fátima para justificar o beneplácito miraculado da troika na sétima avaliação é, a bem dizer, coisa para a Comissão para a Verificação das Curas Extraordinárias do professor Daniel Serrão.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Gender Neutral Bathroom


Depois de Kristina Schröder, Ministra da Família e da Juventude alemã, propor aos alemães a neutralização ontológica, gramatical e de género da divindade - em vez do artigo masculino der (der Gott) propõe o neutro das (das Gott) -, eis mais uma proposta sem um pingo de segregação sexista: a Gender Neutral Bathroom. O mundo pula e avança...