terça-feira, 15 de outubro de 2013

O que Agustina sabe dá para arrasar montanhas


Agustina faz hoje 91 anos. Reescrever o que se escreveu há um ano. Porque sim. Porque, para glosar uma sageza hodierna, gostamos da repetição. É como se o futuro acreditasse em nós.

Como um vade mecum literário para ler o mundo dos homens quando os não percebo, guardo dezenas de citações manuscritas dos romances de Agustina. Leio-as sempre com o espanto renovado de quem vê eclodir um ovo, isto é, a aparição de uma sabedoria natural primigénita. Sem a paciência do conceito ou a motilidade do argumento, os livros de Agustina estão pejados da sabedoria do concreto a que só a literatura acede, sem academia ou sistema.
Um dia uma mulher, talvez extasiada pela sageza sibilina de Agustina em alguma entrevista televisiva, abordou-a na rua e disse-lhe que gostava tanto dela que um dia ainda lia um livro seu. Se o leu, tornou-se mais sabedora, porque, glosando uma dessas citações, o que Agustina sabe dá para arrasar montanhas.

sábado, 5 de outubro de 2013

Swap, Swap, Swap


Há meia dúzia de dias e a propósito do bruaá dos swaps, um administrador de uma empresa pública teve o descoco de vir a público dizer que era frequente os banqueiros fazerem fila à porta do seu escritório com o propósito benfazejo de lhe emprestar dinheiro. E, num arrebato de franqueza, chegou mesmo a dizer que alguns dos sobreditos até metiam cunhas aos ministros para serem recebidos. Ora, como muitos administradores já foram banqueiros e podem voltar a ser, e, conversamente, como muitos banqueiros já foram administradores e podem voltar a ser, quinhoando também os ministros que já foram ambas as coisas e virão a ser o que lhes aprouver, estamos conversados.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Prof.

Uma disciplina nova. Trinta juvenis ougados por diplomas e excelência escolar. Leio as finalidades do programa da disciplina e a coisa parece-me hiperbólica. Leio, releio, tresleio: proporcionar mediações conducentes a uma tomada de posição sobre o sentido da existência
E eu que gosto é do afofado travesseiro da indecisão!

Morrissey na Penguin Classics


Uma autobiografia de Morrissey na Penguin Classics? É grande o merecimento e, bem vistas as coisas, o tipo que disse que there's more to life than books, you know, but not much more já faz parte do cânone.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Perspectivismo Constitucional

Não há factos, só interpretações, escreveu Nietzsche com desaforo aforístico; não há verdade, só interpretações, glosou o perspectivismo filosófico do século passado; não há constituição, só interpretações, declarou o primeiro-ministro após rememorar as vinte cinco técnicas de colocação de voz e franzir gravemente a terceira dobra cutânea da fronte.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Professores, proletários, missionários

O diagnóstico é certeiro: …o professor, obrigado a responder a novos objectivos da escola que já nada têm que ver com a sua missão original (objectivos cada vez mais políticos: retardar a entrada dos jovens na vida activa, corrigir as desigualdades sociais, substituir a educação parental, policiar os costumes, etc.), teve que começar a enfrentar tarefas policiais, psico-sociais e de animação. Mas António Guerreiro prossegue, percuciente e sagaz ao analisar a proletarização docente e ao ver nela uma paulatina perda de autonomia, até ao ponto em que a actividade do professor deixa de ser uma actividade intelectual.
Quem frequenta as salas de professores ou fala com eles sabe sobre o que escreve António Guerreiro: o assoberbamento burocrático – os professores transmudados em amanuenses e mangas-de-alpaca; a falta de tempo para ler e pensar; os nefandos terrores da performatividade - relatórios atrás de relatórios, actas atrás de actas, justificações atrás de justificações, avaliações atrás de avaliações, evidências atrás de evidências; a sobreocupação horária e a sua extensão à sorrelfa por via da Internet e do trabalho imaterial.

Devido à sua proletarização, os professores foram transformados em espíritos incuriosos, leitores relapsos e intelectualmente alheados, e isso faz com que a parole professorale seja, hoje, proferida por uma voz sem eco, flatus vocis.


Professores, proletários, missionários

Em 1971, Roland Barthes escreveu, para a revista Tel Quel, um texto a que deu o título: Escritores, Intelectuais, Professores. Por si só, tal título mostra como os professores foram entretanto deslocados e já não pertencem a esse mundo de outrora. Eles surgiam então ao lado de outras duas respeitáveis classes (que, aliás, também já não têm o mesmo estatuto), enquanto detentores de uma autoridade adquirida automaticamente pela parole professorale. Essa modalidade de discurso, herdeira da Retórica e dotada de uma autoridade moral conferida pelo saber, não podia sobreviver às novas condições que retiraram o saber da esfera exclusiva do cânone escolar e em que o professor, obrigado a responder a novos objectivos da escola que já nada têm que ver com a sua missão original (objectivos cada vez mais políticos: retardar a entrada dos jovens na vida activa, corrigir as desigualdades sociais, substituir a educação parental, policiar os costumes, etc.), teve que começar a enfrentar tarefas policiais, psico-sociais e de animação. A fortuna de um actual ministro que chegou ao seu posto à custa da denúncia do “eduquês” deve-se ao facto de, com esse chavão, ele apontar para um desvio da escola em relação a essa missão original que, presume-se, ele achava que podia e devia ser restaurada. Entretanto, em sentido contrário a uma tal missão, os professores têm sido submetidos – sem tréguas e desde há muitos anos – ao tratamento mais ignóbil a que uma classe profissional pode estar sujeita. Se quisermos utilizar um termo genérico para designar o que lhes foi infligido (para além das “sevícias” – da parte dos alunos, da parte dos pais – a que ficaram expostos a partir do momento em que lhes foi retirado todo o domínio) temos de falar de uma progressiva, sistemática e programada proletarização. Em que é que ela consiste? Numa total perda de autonomia, até ao ponto em que a actividade do professor deixou de ser uma actividade intelectual. A partir desse momento, a autoridade do professor – que, aliás, para existir é necessário que esteja integrada num sistema que a detenha - ficou completamente arruinada. O sinal mais óbvio dessa proletarização – aquele onde ela é exibida pela máquina governamental com uma clara intenção de humilhação – é o horário de trabalho. Dantes, o trabalho do professor compreendia o tempo controlado (o tempo lectivo) e o tempo autónomo, que ninguém conseguia avaliar exactamente a quanto correspondia – dependia do treino, dos escrúpulos, da responsabilidade e do sentido de missão do próprio professor. Daí, a ideia tão repetida de que os professores gozam (gozavam) de um horário privilegiado. Agora, não só o tempo de trabalho controlado aumentou bastante, como aquilo que deveria ser tido por conta de trabalho autónomo perdeu esse estatuto porque o Ministério o passou a contabilizar no horário oficial: trinta e cinco horas de trabalho na escola, mais cinco horas de trabalho em casa. Quem alguma vez foi professor sabe bem que essas cinco horas semanais estão longe de ser suficientes. Mas pior do que fazer horas extraordinárias que não são pagas é sentir que até o pouco que resta aos professores de tempo autónomo entra na contagem diabólica do tempo controlado. O horário dos professores pode até não ter efectivamente aumentado. Mas, em termos simbólicos, chegou-se à estação terminal que diz: proletarização.

António Guerreiro

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Políticas da Linguagem/Requalificação


Quando a atmosfera é má, escreveu Orwell em Politics and the English Language, a linguagem não fica indemne: quando há um hiato entre os nossos verdadeiros objectivos e os objectivos declarados, voltamo-nos como que instintivamente para as palavras longas e para as expressões gastas, como um choco a largar tinta.
No seu tempo, escreveu, o discurso e a escrita política eram em grande medida a defesa do indefensável. Na sua opinião, factos históricos como a continuidade do domínio britânico na Índia, as purgas e deportações russas, o bombardeamento atómico do Japão podiam ser defendidos politicamente, mas apenas com argumentos que eram demasiado brutais para que a maior parte das pessoas os assumisse, e que não combinam bem com os objectivos professados pelos partidos políticos. Assim, afirma Orwell, a linguagem política estaria inçada de eufemismos, petições de princípio e pura vagueza turva. Vejamos os exemplos de Orwell:
Povoações indefesas são bombardeadas por aviões, os habitantes expulsos para o campo, o gado varrido a metralhadora, as cabanas postas a arder com balas incendiárias: a isto chama-se pacificação. Rouba-se as quintas a milhões de camponeses que são obrigados a caminhar penosamente pelas estradas com não mais do que o que conseguem carregar: a isto chama-se transferência da população ou rectificação das fronteiras. As pessoas são presas durante anos sem julgamento, ou levam tiros na nuca, ou são enviadas para morrer de escorbuto em explorações florestais no Árctico: a isto chama-se eliminação de elementos instáveis.
Estabeleça-se uma analogia prospectiva dos exemplos de Orwell com a pastosa retórica do ordoliberalismo indígena: na saúde, os utentes experimentam a provação da desmesura das taxas moderadoras e a privação de serviços: a isto chama-se Racionalização na prestação de cuidados; a pretexto da crise da dívida soberana, elevam-se impostos e mingam-se salários, depauperando a população a níveis crudelíssimos: a isto chama-se Ajustamento; o governo intenta empochar quatro mil milhões de euros em impostos, esbulhar remunerações e extinguir serviços: a isto chamar-se-á Refundação. O Ministério da Educação pretende remeter ao inferno do despedimento milhares de professores, depois de os fazer passar pelo purgatório da mobilidade: a isto chamar-se-á Requalificação.
Dirá Orwell que esta fraseologia é necessária quando se quer dar nome às coisas sem chamar as imagens mentais que lhes correspondem, mas nós sabemos que a palavra Requalificação é a palavra longa de um choco a largar tinta.