Hoje, depois da leitura
de um artigo sobre a proliferação micológica das agremiações de jantaristas,
apodadas fraternalmente de confrarias, lembrei-me do Fernando Veríssimo. Imaginei-o
a escrever O Clube Dos Anjos após um empanzinanço
de Boeuf Bourguignon. O ventre lêvedo
a roçagar no tampo da secretária. A tensão no cós das calças e os dedos a
ladrilhar no teclado: «Nem todos os dias se quer ouvir uma estaladiça fuga de
Bach ou amar uma mulher suculenta, mas todos os dias se quer comer. A fome é o
único desejo reincidente. A visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder
acaba – mas a fome continua». Depois liguei o televisor, esgueirou-se o humor,
e aí está, insopitável, a uníssona conclamação universal do Veríssimo: a fome
continua!
domingo, 20 de outubro de 2013
terça-feira, 15 de outubro de 2013
O que Agustina sabe dá para arrasar montanhas
Agustina faz hoje 91
anos. Reescrever o que se escreveu há um ano. Porque sim. Porque, para glosar uma
sageza hodierna, gostamos da repetição. É
como se o futuro acreditasse em nós.
Como um vade mecum literário para ler o mundo
dos homens quando os não percebo, guardo dezenas de citações manuscritas dos
romances de Agustina. Leio-as sempre com o espanto renovado de quem vê eclodir
um ovo, isto é, a aparição de uma sabedoria natural primigénita. Sem a
paciência do conceito ou a motilidade do argumento, os livros de Agustina estão
pejados da sabedoria do concreto a que só a literatura acede, sem academia ou
sistema.
Um dia uma mulher,
talvez extasiada pela sageza sibilina de Agustina em alguma entrevista
televisiva, abordou-a na rua e disse-lhe que gostava tanto dela que um dia
ainda lia um livro seu. Se o leu, tornou-se mais sabedora, porque, glosando uma
dessas citações, o que Agustina sabe dá para arrasar montanhas.
sábado, 5 de outubro de 2013
Swap, Swap, Swap
Há
meia dúzia de dias e a propósito do bruaá dos swaps, um administrador de uma
empresa pública teve o descoco de vir a público dizer que era frequente os
banqueiros fazerem fila à porta do seu escritório com o propósito benfazejo de
lhe emprestar dinheiro. E, num arrebato de franqueza, chegou mesmo a dizer que
alguns dos sobreditos até metiam cunhas aos ministros para serem recebidos. Ora,
como muitos administradores já foram banqueiros e podem voltar a ser, e,
conversamente, como muitos banqueiros já foram administradores e podem voltar a
ser, quinhoando também os ministros que já foram ambas as coisas e virão a ser
o que lhes aprouver, estamos conversados.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Prof.
Uma disciplina nova.
Trinta juvenis ougados por diplomas e excelência escolar. Leio as finalidades do
programa da disciplina e a coisa parece-me hiperbólica. Leio, releio, tresleio:
proporcionar mediações conducentes a uma tomada
de posição sobre o sentido da existência.
E eu que gosto é do afofado
travesseiro da indecisão!
Morrissey na Penguin Classics
Uma autobiografia de Morrissey na Penguin Classics?
É grande o merecimento e, bem vistas as coisas, o tipo que disse que there's
more to life than books, you know, but not much more já faz parte do cânone.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Perspectivismo Constitucional
Não há factos, só
interpretações, escreveu Nietzsche com desaforo aforístico; não há verdade, só
interpretações, glosou o perspectivismo filosófico do século passado; não há constituição, só interpretações, declarou o primeiro-ministro após rememorar as
vinte cinco técnicas de colocação de voz e franzir gravemente a terceira dobra
cutânea da fronte.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Professores, proletários, missionários
O diagnóstico é
certeiro: …o professor, obrigado a
responder a novos objectivos da escola que já nada têm que ver com a sua missão
original (objectivos cada vez mais políticos: retardar a entrada dos jovens na
vida activa, corrigir as desigualdades sociais, substituir a educação parental,
policiar os costumes, etc.), teve que começar a enfrentar tarefas policiais,
psico-sociais e de animação. Mas António Guerreiro prossegue, percuciente e
sagaz ao analisar a proletarização docente e ao ver nela uma paulatina perda de
autonomia, até ao ponto em que a
actividade do professor deixa de ser uma actividade intelectual.
Quem frequenta as salas
de professores ou fala com eles sabe sobre o que escreve António Guerreiro: o
assoberbamento burocrático – os professores transmudados em amanuenses e
mangas-de-alpaca; a falta de tempo para ler e pensar; os nefandos terrores da
performatividade - relatórios atrás de relatórios, actas atrás de actas,
justificações atrás de justificações, avaliações atrás de avaliações,
evidências atrás de evidências; a sobreocupação horária e a sua extensão à
sorrelfa por via da Internet e do trabalho imaterial.
Devido à sua
proletarização, os professores foram transformados em espíritos incuriosos, leitores
relapsos e intelectualmente alheados, e isso faz com que a parole professorale seja, hoje, proferida por uma voz sem eco, flatus vocis.
Professores, proletários, missionários
Em 1971, Roland Barthes
escreveu, para a revista Tel Quel, um
texto a que deu o título: Escritores, Intelectuais, Professores. Por si só, tal
título mostra como os professores foram entretanto deslocados e já não pertencem
a esse mundo de outrora. Eles surgiam então ao lado de outras duas respeitáveis
classes (que, aliás, também já não têm o mesmo estatuto), enquanto detentores
de uma autoridade adquirida automaticamente pela parole professorale. Essa modalidade de discurso, herdeira da
Retórica e dotada de uma autoridade moral conferida pelo saber, não podia
sobreviver às novas condições que retiraram o saber da esfera exclusiva do
cânone escolar e em que o professor, obrigado a responder a novos objectivos da
escola que já nada têm que ver com a sua missão original (objectivos cada vez
mais políticos: retardar a entrada dos jovens na vida activa, corrigir as
desigualdades sociais, substituir a educação parental, policiar os costumes,
etc.), teve que começar a enfrentar tarefas policiais, psico-sociais e de
animação. A fortuna de um actual ministro que chegou ao seu posto à custa da
denúncia do “eduquês” deve-se ao facto de, com esse chavão, ele apontar para um
desvio da escola em relação a essa missão original que, presume-se, ele achava
que podia e devia ser restaurada. Entretanto, em sentido contrário a uma tal
missão, os professores têm sido submetidos – sem tréguas e desde há muitos anos
– ao tratamento mais ignóbil a que uma classe profissional pode estar sujeita. Se
quisermos utilizar um termo genérico para designar o que lhes foi infligido
(para além das “sevícias” – da parte dos alunos, da parte dos pais – a que
ficaram expostos a partir do momento em que lhes foi retirado todo o domínio)
temos de falar de uma progressiva, sistemática e programada proletarização. Em
que é que ela consiste? Numa total perda de autonomia, até ao ponto em que a
actividade do professor deixou de ser uma actividade intelectual. A partir
desse momento, a autoridade do professor – que, aliás, para existir é
necessário que esteja integrada num sistema que a detenha - ficou completamente
arruinada. O sinal mais óbvio dessa proletarização – aquele onde ela é exibida
pela máquina governamental com uma clara intenção de humilhação – é o horário de
trabalho. Dantes, o trabalho do professor compreendia o tempo controlado (o
tempo lectivo) e o tempo autónomo, que ninguém conseguia avaliar exactamente a
quanto correspondia – dependia do treino, dos escrúpulos, da responsabilidade e
do sentido de missão do próprio professor. Daí, a ideia tão repetida de que os
professores gozam (gozavam) de um horário privilegiado. Agora, não só o tempo
de trabalho controlado aumentou bastante, como aquilo que deveria ser tido por
conta de trabalho autónomo perdeu esse estatuto porque o Ministério o passou a
contabilizar no horário oficial: trinta e cinco horas de trabalho na escola,
mais cinco horas de trabalho em casa. Quem alguma vez foi professor sabe bem
que essas cinco horas semanais estão longe de ser suficientes. Mas pior do que
fazer horas extraordinárias que não são pagas é sentir que até o pouco que
resta aos professores de tempo autónomo entra na contagem diabólica do tempo
controlado. O horário dos professores pode até não ter efectivamente aumentado.
Mas, em termos simbólicos, chegou-se à estação terminal que diz:
proletarização.
António Guerreiro
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