Volvido um par de
semanas sobre a invocação de Masoch por Cavaco Silva a propósito da dívida que
nos derreia mas não derreia, e eis que um presuntivo grupo de zelotas sádicos, professos
quiçá do ai aguenta aguenta, ameaçava promover uma acção de apoio à troika. O
que se diria? Nada. Soçobraríamos na mornidão dos truísmos do politicamente
correcto: que também têm direito, e a liberdade de expressão pois então, e o
não concordo com o que dizes mas defenderei até à morte o direito de o dizeres,
e mais isto, e mais aquilo. Pois é. O politicamente correcto é um passe-partout retórico e doutrinário que,
segundo uma novel definição, digna do Dicionário
do Diabo do Bierce, sustenta a ideia de que é inteiramente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo. Ora,
hoc opus, hic labor est, aqui é que a
porca torce o rabo. Não é.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
domingo, 20 de outubro de 2013
Diário dos Perplexos/Veríssimo e a Fome
Hoje, depois da leitura
de um artigo sobre a proliferação micológica das agremiações de jantaristas,
apodadas fraternalmente de confrarias, lembrei-me do Fernando Veríssimo. Imaginei-o
a escrever O Clube Dos Anjos após um empanzinanço
de Boeuf Bourguignon. O ventre lêvedo
a roçagar no tampo da secretária. A tensão no cós das calças e os dedos a
ladrilhar no teclado: «Nem todos os dias se quer ouvir uma estaladiça fuga de
Bach ou amar uma mulher suculenta, mas todos os dias se quer comer. A fome é o
único desejo reincidente. A visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder
acaba – mas a fome continua». Depois liguei o televisor, esgueirou-se o humor,
e aí está, insopitável, a uníssona conclamação universal do Veríssimo: a fome
continua!
terça-feira, 15 de outubro de 2013
O que Agustina sabe dá para arrasar montanhas
Agustina faz hoje 91
anos. Reescrever o que se escreveu há um ano. Porque sim. Porque, para glosar uma
sageza hodierna, gostamos da repetição. É
como se o futuro acreditasse em nós.
Como um vade mecum literário para ler o mundo
dos homens quando os não percebo, guardo dezenas de citações manuscritas dos
romances de Agustina. Leio-as sempre com o espanto renovado de quem vê eclodir
um ovo, isto é, a aparição de uma sabedoria natural primigénita. Sem a
paciência do conceito ou a motilidade do argumento, os livros de Agustina estão
pejados da sabedoria do concreto a que só a literatura acede, sem academia ou
sistema.
Um dia uma mulher,
talvez extasiada pela sageza sibilina de Agustina em alguma entrevista
televisiva, abordou-a na rua e disse-lhe que gostava tanto dela que um dia
ainda lia um livro seu. Se o leu, tornou-se mais sabedora, porque, glosando uma
dessas citações, o que Agustina sabe dá para arrasar montanhas.
sábado, 5 de outubro de 2013
Swap, Swap, Swap
Há
meia dúzia de dias e a propósito do bruaá dos swaps, um administrador de uma
empresa pública teve o descoco de vir a público dizer que era frequente os
banqueiros fazerem fila à porta do seu escritório com o propósito benfazejo de
lhe emprestar dinheiro. E, num arrebato de franqueza, chegou mesmo a dizer que
alguns dos sobreditos até metiam cunhas aos ministros para serem recebidos. Ora,
como muitos administradores já foram banqueiros e podem voltar a ser, e,
conversamente, como muitos banqueiros já foram administradores e podem voltar a
ser, quinhoando também os ministros que já foram ambas as coisas e virão a ser
o que lhes aprouver, estamos conversados.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Prof.
Uma disciplina nova.
Trinta juvenis ougados por diplomas e excelência escolar. Leio as finalidades do
programa da disciplina e a coisa parece-me hiperbólica. Leio, releio, tresleio:
proporcionar mediações conducentes a uma tomada
de posição sobre o sentido da existência.
E eu que gosto é do afofado
travesseiro da indecisão!
Morrissey na Penguin Classics
Uma autobiografia de Morrissey na Penguin Classics?
É grande o merecimento e, bem vistas as coisas, o tipo que disse que there's
more to life than books, you know, but not much more já faz parte do cânone.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Perspectivismo Constitucional
Não há factos, só
interpretações, escreveu Nietzsche com desaforo aforístico; não há verdade, só
interpretações, glosou o perspectivismo filosófico do século passado; não há constituição, só interpretações, declarou o primeiro-ministro após rememorar as
vinte cinco técnicas de colocação de voz e franzir gravemente a terceira dobra
cutânea da fronte.
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