sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Prof.

Relembro Bob Flemming, a personagem principal do romance High Fidelity, de Nick Hornby, que confessava ser o sexo a actividade mais absorvente que tinha descoberto na idade adulta. Depois da direcção de turma do 9º G, olho descoroçoado para a resma de 170 testes a deslado e… eureka!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O século de Sartre? O escutismo de Camus?


A propósito do centenário de Albert Camus, no jornal i, Bruno Vieira Amaral replica a ideia de que Camus já sofreu várias tentativas de diminuição pública, mormente o apoucamento dos seus méritos filosóficos e literários e a crítica ao seu vezo moralizante. Fê-lo, inculpe, Susan Sontag ao afirmar que não há em Camus nem arte nem pensamento de altíssima qualidade, fá-lo-iam muitos outros ao longo do século passado, o Siécle de Sartre, de acordo com o livro que Bernard-Henri Lévy escreveu sobre o seu quase antípoda intelectual. Os ecos da disputa ainda reboam por aí com tal sonido que, não há muito tempo, no festejado Dictionnaire Égoïste De La Littérature Française, Charles Dantzing condoía-se por ser usual não haver mais moderados como Voltaire, e visava os ensaios morais de Camus por serem banais (O Mito de Sísifo, O Primeiro Homem), insuportavelmente pedagógicos, e lembrarem um certo escutismo intelectual. O homem vive, portanto.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Além do mais, Leibniz disse que o possível exige existir


Estou com o Laurence Sterne: Os ociosos que deixam o país natal vão para o estrangeiro por alguma razão ou razões que se podem derivar de uma destas causas gerais - enfermidade do corpo, imbecilidade do espírito ou necessidade inevitávelA geografia da ficção obsidia-me mais. Pouco dado a viagens, tenho duas cidades e uma ilha a visitar: Rivendell e as Terras do Meio, Argia e a Ilha dos Filósofos. Que estas geografias sejam meras possibilia, é um obstáculo de somenos importância. E para além do mais, como dizia Borges, não sabemos se o universo, este universo, pertence ao género realista ou ao género fantástico.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Crato, o Crasso

"O ministro da Educação defendeu segunda-feira em Ovar que, para ser dispensada mais austeridade no Orçamento do Estado para 2014 e ainda pagar a dívida total do Estado, todos os portugueses teriam que "trabalhar um ano sem comer".
 
Quando publicou o livro O Eduquês em Discurso Directo - Uma Crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista, Nuno Crato era uma personagem empática que pontificava em entrevistas e opiniosos programas de televisão, polemizando abonde sobre o universo da educação e do sistema educativo, verberando a ausência de exames e de avaliação externa das escolas, zurzindo no facilitismo generalizado - induzido, segundo Crato, pelos excessos ideológicos das pedagogias românticas e construtivistas reinantes. Ao tempo, acolitava ao tremendismo Fulfilled Prophecy de Medina Carreira, mas mantinha o perfil compósito de um técnico, embora com a vocação pronto-a-pensar de um doxólogo. Mas Crato mudou e transfigurou-se no ideólogo zelota do governo, quis implodir o ministério da educação, e é agora o responsável pela comissão liquidatária da escola pública e o autor material de alguns petardos retóricos que desdoiram a reputação rigorista de um ministro empático, catedrático, matemático. Ai desdoiram, desdoiram!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Dicionário do Mofino 60

Consenso, s.m. segundo Cavácuo, o resultado de um incerto processo de decisão em que uma ou mais partes renunciam às suas convicções para chegar à certeza de uma indecisão.

domingo, 3 de novembro de 2013

Diário dos perplexos/A crise contada por Esopo


Parlamento Europeu investiga violações da troika

Como é sabido, as fábulas de Esopo acabavam invariavelmente com uma tirada moral, o Epimítio, introduzida sempre pela expressão a fábula ensina, a estória mostra (ho mythos deloí), cujo intento era definir  um módico de sageza moral, formular e empírica.
Na fábula narrada sobre a crise, contada com amenidade e graça, os caracteres são os meridionais, esse gentio prenhe de aleijões morais e cívicos, descrito graciosamente por Susan Sontag no Amante do Vulcão como gente que trabalha o menos possível, preferindo dançar, beber, querelar, matar as mulheres infiéis; gente indolente e dócil, ignorante, supersticiosa, desinibida, nunca pontual, visivelmente mais pobre (como não poderia deixar de ser, dizem os do norte), que, segundo Sontag, apesar de tudo, levam vidas invejáveis - ou antes, invejadas pelos setentrionais, sacrificados do trabalho, sensualmente inibidos e com governos menos corruptos.
Ho mythos deloí, a fábula ensinava, é claro, que, à semelhança da rã que se quis igualar ao boi e acabou por rebentar, a crise era o resultado das vidas invejáveis que levávamos e das quais teríamos inexoravelmente de abdicar. Foi o que fizemos e, asinha, asinha, voltámos ao charco. Mas a fábula pode estar mal contada e a moral da estória pode ser outra, quiçá imoral.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Valha-nos Santa Rita de Cássia!

Apresentado o orçamento, e embora sabendo, como Bierce, que um santo é um pecador morto, revisto e corrigido, concitamos hoje, dia de todos os santos, o amparo de uma santinha de quem sou devoto e de quem tenho uma colecção de pagelas – Santa Rita de Cássia, taumaturga dos impossíveis e advogada das causas perdidas.