Natal,
s.m.
Aniversário ímpar em que não faz sentido assediar o aniversariante com votos de
longevidade (e que terá levado o apologeta cristão Arnobius a ridicularizar a
ideia pagã de celebrar o aniversário dos deuses); trégua nas desavenças
familiares, para que possam ser retomadas no dia seguinte com redobrada fereza;
período em que o homem descobre a sua humanidade em copiosíssimas ingestões e
contritas indigestões; dia em que descobrimos que a fonte e a raiz de todo o bem
é o prazer do ventre; época na qual a felicidade se eleva à exaltação e
estatela na depressão; altura do ano em que entreabrimos os corações, abrimos a
bolsas e escancaramos as portas à gula da parentela.
domingo, 22 de dezembro de 2013
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Prof./Outra vida, amigo, outra vida! Nesta derrancas-me o sangue...
Fim de período. Relembrar
o mestre Aquilino. No Cinco Reis de Gente, com a mestria useira e vezeira,
Aquilino apresenta-nos o Padre Serrão, mestraço de latinidades e propedeuta dos
filhos de labregos ricos que não sabiam o
que fazer ao dinheiro e agradava à sua prosápia ter um filho tonsurado. De
ordinário, escreve Aquilino, e como estes efebos, ásperos e bravios,
toscanejassem de tédio a silabar o rosário das declinações, o padre Serrão
despedia-os com este remoque terminativo: Outra
vida, amigo, outra vida! Nesta derrancas-me o sangue, gastas o baguinho a teu
pai e ficas burro como dantes.
Volvido um século de Psicologias e Pedagogias várias, novéis e diferenciais, o remoque do Padre Serrão devia continuar a ser um começo de vida. Não é. E vão 20 planos de recuperação.
Volvido um século de Psicologias e Pedagogias várias, novéis e diferenciais, o remoque do Padre Serrão devia continuar a ser um começo de vida. Não é. E vão 20 planos de recuperação.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Is love a social construct?
Só os Pet Shop Boys o
poderiam ter feito. Misturar, em delírio mixológico, elementos de uma peça de
Michael Nyman (que já remetia para a música de Purcell) com a Sociologia das
Emoções é obra. É isto a aventura da Pop! É isto a canção pop transmudada em
pequeno ensaio sociológico. É isto Love
Is A Bourgeois Construct? Alguns acham que sim.
While the
bankers all get their bonuses
I'll just get
along with what I've got
Watching the
weeds in the garden
Putting my feet
up a lot
I'll explore the
outer limits of boredom
moaning
periodically
Just a
full-time, lonely layabout
that's me
When you walked
out you did me a favour
It's absolutely
clear to me
that love is a
bourgeois construct
just like they
said at university
I'll be taking
my time for a long time
with all the
schadenfreude it's cost
calculating what
you've lost
Now I'm digging
through my student paperbacks
Flicking through
Karl Marx again
Searching for
the soul of England
Drinking tea
like Tony Benn
Love is just a
bourgeois construct
so I'm giving up
the bourgeoisie
until you come
back to me
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Diário dos Perplexos/Não será gastar cera com ruim defunto, mas…
Nada de hagiografias e
apólogos simplistas. Um santo, di-lo Bierce, é um pecador morto, revisto e
corrigido, sendo que um pecador vivo é um quase beato, bastando para tal
morrer, vestir-lhe o fato, esticá-lo inteiro e chamar o defunteiro.
Fazer a guerra quando não
se pode ter a paz, fazer a paz quando não se pode ter a guerra, sempre foi
humano, demasiado humano. Nem sempre é fácil fazê-lo bem, e é por isso que
faz sentido gastar cera com tamanho defunto. Mas, em verdade vos
digo, apesar de não ser dos do Maniqueu, não foi fácil conter os engulhos quando vi alguns
líderes nas cerimónias, presença que comprova, aliás, que o odor de santidade continua a
açodar muita gentalha.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Obama & Raquel Varela e as self-fulfilling prophecies
Enquanto alguns
economistas vaticinam a morte do sistema actual de segurança social, fazem a
apologia da self help e clamam que só
uma minoria de desvalidos, os deserving poors, merece apoio, outros, adeptos
das mertonianas self-fulfilling prophecies, não
querem deixar a profecia depender da casuística e estão empenhados, segundo Bourdieu,
em fazer da insegurança social um
princípio positivo de organização colectiva, capaz de produzir agentes
económicos mais eficazes e produtivos.
Recentemente, o
presidente Obama pôs-se a fazer umas contas sobre a falta de mobilidade social
e a crescente desigualdade no seu país, ilustrando este facto com a seguinte
intervenção: Desde 1979, quando terminei
o liceu, a produtividade da economia americana subiu mais de 90%, mas os
rendimentos da família típica americana aumentaram menos de 8%. E continuou: No
passado, o salário do director de uma empresa era 20 ou trinta vezes o de um
trabalhador médio, hoje é 273 vezes mais. Ora aí estão dois factores a
ponderar pelos áugures da insustentabilidade da segurança social, que têm
propalado a tese do catastrofismo demográfico. Depois disto, a tese que afirma
que a chave da sustentabilidade da
segurança social está na riqueza produzida e nas relações laborais e não no
actual quadro demográfico não será tão risível. Depois disto, até a negregada
Raquel Varela pode citar Obama.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Oração pela privatização dos CTT (Pace, Saramago!)
Marx afirmou que a
propriedade privada nos tornou tão estúpidos e limitados, que um objecto só é
nosso quando o possuímos, o que o terá levado a partilhar fraternalmente a fortuna de
Engels. Proudhon, frasista compulsivo, proclamou
que a propriedade é um roubo, depois de ter plagiado a proclamação. Já para os catecúmenos liberais – mesmo para
aqueles que passinham os primeiros passos na passeadeira da alta política – as
privatizações são um arroubo de redenção económica, e o friso dos economistas
coristas, secretários de estado e ministros, apodíctico, assevera que é necessário
retirar o Estado dos negócios. Mas, entre-dentes, o rapazio resmoneia:
Ai os malandrins ronhosos! Ai que a política para eles é a continuação dos negócios por outros meios! Ai os manhosos, que sempre, em
rapina, sobrepairaram sobre o público e o privado! Ai, tomai atenção, pois, à vidinha
vindoura desta matulagem, já que um ministro não é senão um político
em trânsito entre um conselho de administração e outro conselho de administração!
Para eles, os malandrins ronhosos, mais uma
vez, a saramaguiana oração exprobatória.
Oração pelas
Privatizações
«Privatize-se tudo,
privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça
e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for
diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto
privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração
deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a
salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a
todos.»
José Saramago –
Cadernos de Lanzarote - Diário
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Prof. Quadros de Excelência/Quadros de Decepção
Cioran escreveu que a
única coisa que deveríamos ensinar aos jovens é que não há nada, digamos quase
nada, a esperar da vida. Imagine-se um Quadro das Decepções onde constariam as
desilusões reservadas a cada um de nós, e que seria afixado nas escolas. Parece-me boa ideia. Há
demasiados Quadros de Honra e de Excelência.
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