quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Fazer viver e deixar morrer

No Nascimento da Biopolítica, e indagando sobre o modo como a vida é reificada e erigida em facto político adentro da teoria clássica da soberania, Michel Foucault descreveu como, no século XIX, o poder soberano de fazer morrer e deixar viver se transmudou no poder de fazer viver e deixar morrer: O poder disciplinar, que já em fins do século XVII se centrava no corpo individual (organizando, esquadrinhando, vigiando), possibilitou à biopolítica implantar-se numa outra escala. Tomando a vida como elemento político por excelência, na biopolítica perpassa ainda o antigo poder soberano. Com os investimentos de poder centrados no homem-espécie, a vida passou a ser administrada e regrada pelo Estado. Em nome da protecção das condições de vida da população, preserva-se a vida de uns, enquanto se autoriza a morte de outros tantos. Se o poder soberano já expunha a vida humana individual à morte, ainda que de maneira limitada, o biopoder expõe a vida de populações e grupos inteiros. 
Posto isto, e quando em Portugal, de sorrate, se insinua uma política de racionamento dos medicamentos e dos meios auxiliares de diagnóstico, notícias como esta e esta não são notícias tremendistas. Nada de ilusões: como já afirmara Foucault em La Naissance de la Médicine Sociale (1974), o corpo é uma realidade biopolítica, a medicina é uma estratégia biopolítica, o poder é o poder de fazer viver e deixar morrer.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Suspenso no ar como uma noiva de Chagall


Suspenso no ar como uma noiva de Chagall, escreveu Foster Wallace referindo-se a Michael Jordan. Mas podia ser Federer, em paro como no Discóbolo de Míron, no ténis - sobre o qual Wallace escreveu com furor poético -, a fazer um passing shot. Apesar do obstinado niilismo que domina a obra de Wallace, Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, autores de Um Mundo Iluminado, julgam entrever nos seus textos sobre os momentos sagrados do desporto uma linha que contraria este niilismo - os únicos momentos em que o corpo é corpo inerme, furtando-se ao solo em sobrepairo.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Internacional Citacionismo/Gol

GOL

A esfera desce
do espaço
         veloz
ele a apara
no peito
e a para
no ar
         depois
como o joelho
a dispõe à meia altura
onde
iluminada
a esfera
         espera
o chute que
         num relâmpago
a dispara
         na direção
         do nosso
         coração.


      Ferreira Gullar

sábado, 4 de janeiro de 2014

Dicionário do Mofino 62/ A palavrada do ano

Irrevogável, adj. O que não torna atrás, mas dá a volta; o que não se pode anular, mas concede a felicidade do esquecimento das coisas irreparáveis; o chamo de Deus é eterno e irrevogável, escreveu Paulo, o apóstolo, mas as proclamações dos homens tem a duração fruste de um ámen-jesus, escreveu Paulo, o ministro. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Diário dos Perplexos/Metaforologia odiosa do comunismo

Um dia destes fará-se-á a metaforologia odiosa da retórica anti-comunista. Haverá, certamente, um capítulo intitulado “Metáforas dietéticas: da paidofagia à necrofagia”. Bom proveito! 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Internacional Citacionismo/Munro para ambientalistas

Os meteoros não estão para bucolismos. Os neorrurais que, acossados pelo desemprego e provações da vida citadina, quiseram mudar de vida e provar as amenidades dulcíssimas do campo e da natureza estão bem arranjados. Na Beira há campos para lavrar e estrumar, vinhedos para podar, mas a meteorologia está inclemente. Aí, a Natureza persiste na sua natureza e arremete agreste e indócil. É tempo, pois, para citar Munro: People who openly admired nature – or who even went so far as to use that word, Nature – were often taken to be slightly soft in the head.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dicionário do Mofino/Ano Novo

Ano Novo, s.m. Os vindouros trezentos e sessenta e dias, cinco horas, quarenta e nove minutos e doze segundos de inveja própria e prosperidade alheia; entra, jocosamente votivo, com juras de temperança – fim do fumo, da beberrice e da comilança –, acaba luculiano, enfartado em comédias e bebédias; os trabalhos e os dias que invariavelmente me convencem do inconveniente de ter nascido; o ano em que o fracasso tem a oportunidade de se renovar; o velho, maquilhado como uma balzaquiana fanada; um ovo gorado, chocado com a alegria de uma pata choca.