sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Diário dos Perplexos/Passos e a semântica dos mundos possíveis


Já lá vai o Marx da Crítica ao programa de Gotha - de cada qual, segundo as suas capacidades; a cada qual, segundo as suas necessidades – e agora temos o Passos do caminhar para viver dentro das nossas possibilidades. Aniquilados os direitos, as garantias sociais, o emprego, a economia, as pensões, isto é, o reino da necessidade, julgado irrealista pela ficção austeritária da consolidação orçamental (ficção continuamente retocada), sobeja agora a semântica dos mundos possíveis, isto é, a semântica de um metafísico ou de um revolucionário.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O Video Killed the Radio Star é manifestamente exagerado


Não. Não, os Buggles não tinham razão. O Video Killed the Radio Star é manifestamente exagerado, e a profusão panóptica da TV e da Net que passa frequentemente por informação, di-lo muito bem dito Saul Bellow, não é senão um disfarce de diversão Kitsch

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sandel more geometrico

Num texto luminoso, o filósofo Michael Sandel demonstra, a bem dizer more geometrico, como um fosso demasiado grande entre ricos e pobres, para além de suscitar questões atinentes à justiça e à ética, prejudica uma política do comum e a solidariedade que uma cidadania democrática exige. De que modo? Escreve Sandel que, à medida que a desigualdade se intensifica, os ricos e os pobres vivem vidas cada vez mais separados. Os ricos mandam os filhos para as escolas particulares (ou para escolas públicas dos subúrbios ricos), deixando as escolas públicas urbanas para os filhos de famílias que não têm outra alternativa. Para além disso, insiste o filósofo americano, uma tendência semelhante conduz ao afastamento dos privilegiados de outras instituições e serviços estatais - os ginásios privados substituem os centros recreativos municipais e as piscinas, os condomínios com segurança privada dependem menos da protecção policial pública, um segundo ou terceiro carro elimina a necessidade de depender de transportes públicos –, levando-os ao abandono de locais e serviços públicos, deixando-os para quem não tem dinheiro para mais. As consequências são, segundo Michael Sandel, a nível fiscal e a nível cívico. Em primeiro, os serviços públicos degradam-se, já que os que não os utilizam têm cada vez menos vontade de os financiar através dos seus impostos. Em segundo, os lugares públicos de interacção (escolas, hospitais, instituições públicas) onde os cidadãos de diferentes estratos sociais se juntavam e eram escolas informais de virtude cívica tornam-se cada vez mais raros, rarefazendo-se também a solidariedade e a cidadania democrática. E demonstra-se assim quod erat demonstrandum.

  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Diário dos Perplexos/O psicobolche e o Senatore

Numa entrevista dada à Al-Jazeera em 29 de Outubro de 2011, o psicobolche  Slavoj Žižek (segundo algumas abantesmas, uma combinação pérfida de marxismo e lacanismo  - Abrenuntio! Vade retro!) constatou: O casamento entre o capitalismo e a democracia acabou. Agora tudo está em aberto. Aquietai-vos, pois. As declarações de Mario Monti aqui citadas já não causam nenhum filosófico espanto, nenhum democrático sobressalto. A Europa é um cadáver adiado e começa a feder aos nacionalismos.

Guia dos Perplexos/O amor não cobre uma multidão de pecados

O humor do Papa Francisco e o amor petrino podem cobrir uma multidão de pecados, mas nada disto é risível. E onde raio é que está o amor?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Dicionário do Mofino 56/Facebook

Facebook, s.m. O sítio onde lutamos vãmente contra a insignificância, para salvar a face e dar-lhe um aspecto decente; uma janela aberta, uma porta às escâncaras; a Apresentação do Eu Na Vida Quotidiana (pace, Goffman!), em edição de luxo, revista e retocada; filosoficamente e à luz de um pensamento dialógico, a apresentação do eu aos outros depois de se ter apresentado a si próprio e não ter ficado íntimo.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Diário dos Perplexos/A helénica terra da arrufada e da sebenta

Fialho de Almeida, viperino, asseverava possuir o futrica duas aptidões atavísticas: a d`irmão do Santíssimo e a de levar lambada de estudante. Hoje, o Santíssimo joga na primeira divisão e o estudante, como figura e representação, continua parasitariamente incrustado à cidade, deixando-a exangue e anémica de energia artística e cultural. Apesar do enfarto dos futricas, a Coimbrinha, helénica terra da arrufada e da sebenta, pitoresco e sarnoso burgo universitário, vai hoje ao Prós e Contras continuar a coçar a coceira da tradição, a brotoeja da praxe. Enfim, na mesma como a lesma.