sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Prof./Outra vida, amigo, outra vida! Nesta derrancas-me o sangue, gastas o baguinho a teu pai e ficas burro como dantes I

Os topoi do discurso autopunitivo dos professores é extenso e consabido: à turma de malandrins ranhosos indisciplinável, que acha que todos os lugares são prisões se lá não desejamos estar, não é imputável o caos da aula, mas sim a mim, e ai de mim, professor inepto, que não domino a arte de amestrar bestiagas; à turma de malandrins ronhosos, aos quais até um parágrafozinho de letra cursiva enfada, não é imputável a incuriosidade, mas sim a mim, e ai de mim, professor inábil, que os não sabe motivar.
Ora, meus amigos, em verdade vos digo: há dias em que não podendo despedi-los com o remoque terminativo do padre Serrão do Aquilino - Outra vida, amigo, outra vida! Nesta derrancas-me o sangue, gastas o baguinho a teu pai e ficas burro como dantes –, sinto-me como um Cristo apócrifo perante o paralítico a gritar: levanta-te e anda! Levanta-te e anda!

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Guia dos Perplexos/Pirronismo de trottoir

Cioran exortá-los-ia, como aos filósofos, a imitar o pirronismo de trottoir que exibe a criatura menos dogmática: a prostituta. Para nós, porém, não se tratará de abdicar, pirronicamente, das convicções a respeito dos homens e de si mesmo, que, a crer neste autor, é o mais elevado ensinamento da prostituição, essa academia ambulante de lucidez, mas tão só de deliberar com um módico de raciocínio prático deliberativo, sopesando a eficácia dos meios no conseguimento dos fins. Não sendo assim, sobeja a moral – fácil e muito frequentada.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Como não mudar o pessoal político usando o comando da televisão e uma citação de La Rochefoucauld III


Já aqui se escreveu sobre a técnica para Não Mudar o Pessoal Político Usando o Comando da Televisão e Uma Citação de La Rochefoucauld. Relembro para memória futura: procure o comando da televisão, sopese-o, liberte-se do efeito delusório da dúzia de botões, cite subvocalmente La Rochefoucauld - há certos defeitos que, bem apresentados, brilham mais do que a própria virtude - e, invocando toda a corte celestial, carregue a esmo. Aparecerá o mesmo, isto é, na última semana, Miguel Relvas.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Prof/ Almeja Vexa alcandorar o seu juvenil à supina condição de nababozinho da clínica?

Nutre V.exa. mui legítimos desejos que o seu infante e infanta aprendam as artes de Esculápio? Almeja Vexa alcandorar o seu juvenil à supina condição de nababozinho da clínica? Acalenta Vexa o sonho de o fazer transcorrer a Via Ápia para este desiderato de modo temporão e sem delongas? Alvitra Vexa que a ociosa Geografia, a fadigosa História, a nefelibata filosofia, não têm serventia para tão nobre móbil? Propugna Vexa que os sobreditos saberes possam, logo no 5º ano, ser substituídos por mais Química e Biologia, quiçá Obstetrícia ou Anatomia Patológica? Saiba Vexa que o Ministro Crato, mui aclamado pelos evoés dos coristas, proveu aos seus anseios:

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Diário dos Perplexos/Passos e a semântica dos mundos possíveis


Já lá vai o Marx da Crítica ao programa de Gotha - de cada qual, segundo as suas capacidades; a cada qual, segundo as suas necessidades – e agora temos o Passos do caminhar para viver dentro das nossas possibilidades. Aniquilados os direitos, as garantias sociais, o emprego, a economia, as pensões, isto é, o reino da necessidade, julgado irrealista pela ficção austeritária da consolidação orçamental (ficção continuamente retocada), sobeja agora a semântica dos mundos possíveis, isto é, a semântica de um metafísico ou de um revolucionário.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O Video Killed the Radio Star é manifestamente exagerado


Não. Não, os Buggles não tinham razão. O Video Killed the Radio Star é manifestamente exagerado, e a profusão panóptica da TV e da Net que passa frequentemente por informação, di-lo muito bem dito Saul Bellow, não é senão um disfarce de diversão Kitsch

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sandel more geometrico

Num texto luminoso, o filósofo Michael Sandel demonstra, a bem dizer more geometrico, como um fosso demasiado grande entre ricos e pobres, para além de suscitar questões atinentes à justiça e à ética, prejudica uma política do comum e a solidariedade que uma cidadania democrática exige. De que modo? Escreve Sandel que, à medida que a desigualdade se intensifica, os ricos e os pobres vivem vidas cada vez mais separados. Os ricos mandam os filhos para as escolas particulares (ou para escolas públicas dos subúrbios ricos), deixando as escolas públicas urbanas para os filhos de famílias que não têm outra alternativa. Para além disso, insiste o filósofo americano, uma tendência semelhante conduz ao afastamento dos privilegiados de outras instituições e serviços estatais - os ginásios privados substituem os centros recreativos municipais e as piscinas, os condomínios com segurança privada dependem menos da protecção policial pública, um segundo ou terceiro carro elimina a necessidade de depender de transportes públicos –, levando-os ao abandono de locais e serviços públicos, deixando-os para quem não tem dinheiro para mais. As consequências são, segundo Michael Sandel, a nível fiscal e a nível cívico. Em primeiro, os serviços públicos degradam-se, já que os que não os utilizam têm cada vez menos vontade de os financiar através dos seus impostos. Em segundo, os lugares públicos de interacção (escolas, hospitais, instituições públicas) onde os cidadãos de diferentes estratos sociais se juntavam e eram escolas informais de virtude cívica tornam-se cada vez mais raros, rarefazendo-se também a solidariedade e a cidadania democrática. E demonstra-se assim quod erat demonstrandum.