domingo, 15 de junho de 2014

Dicionário do Mofino 49/Futebol, s. m. Desporto jogado com os pés, mãos e cabeças perdidas...

Futebol, s. m. Desporto jogado com os pés, mãos e cabeças perdidas, por duas equipas de onze jogadores, três árbitros e duas hordas. Invariavelmente, em paro, há uma bola a assistir; o filósofo Jean-Paul Sartre reflectiu sobre a singularidade desse objecto redondo em-si, que concita tantas paixões, alvitrou que num jogo de futebol tudo fica complicado na presença do adversário (o Outro, o Inferno), e acabou por concluir que numa complicação tudo fica mais complicado na presença da filosofia; o poeta recifense João Cabral de Melo Neto definiu assim a anima da bola de futebol.

A bola não é inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que não se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reação própria como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcia de mão.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Dicionário do Mofino 9/Jornalista desportivo, s.m. o transformista do jornalismo...

Jornalista desportivo, s.m. o transformista do jornalismo; espécie de publicista adepto do perspectivismo de Nietzsche - não há factos, só interpretações; especialista em não acontecimentos capaz de transformar a contusão de um perónio ou um fora-de-jogo num portfólio; ruminante de estádio; criatura opiniosa e longividente capaz de ver em cada facto o seu ponto de vista.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Diário dos Perplexos/Acreditará o politicamente correcto ser possível pegar neste pedaço de merda pelo lado limpo

Já aqui foi lembrado que o politicamente correcto é um passe-partout pragmo-retórico que, segundo uma novel definição digna do Dicionário do Diabo do Bierce, sustenta a ideia de que é inteiramente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo. Ora, mais uma vez, hoc opus, hic labor estaqui é que a porca torce o rabo... Não é. Não gastemos mais latim e limpe-se este buseiro.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Diário dos Perplexos/Se não é o eterno retorno do fascismo, pode bem ser o diabo por ele...

Numa entrevista dada à Al-Jazeera em 29 de Outubro de 2011, o psicobolche  Slavoj Žižek (segundo algumas abantesmas, uma combinação pérfida de marxismo e lacanismo ) constatava ominoso  que o  casamento entre o capitalismo e a democracia tinha acabado e que agora tudo estava em aberto. De facto, o que se entrevê não é resserenador: não se trata da ameaça tremendista e dantesca de um Führerprinzip, como diz aqui o António Guerreiro, mas de aniquilação da potência da decisão política como jogo dos possíveis e da inculcação da experiência do medo na vida activa e inactiva mediante os renascentes microfascismos  empresariais e as diligentes políticas de insegurança social. Se não é o Eterno Retorno do Fascismo, pode bem ser o diabo por ele.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O conservadorismo explicado só com duas perguntas e um distinguo


Para a revista Exame, um aporético João Pereira Coutinho resumiu a diferença entre conservadores e progressistas em duas perguntas: Os progressistas, confrontados com uma possibilidade de mudança, perguntam: ‘E por que não?’ Os conservadores preferem a pergunta inversa: ‘E por que sim?’. 
Ora, eu uso de cotio um pequeno vade mecum do Dicionário do Diabo e, ainda mal lido e entendido do dilemático perguntar do Coutinho, desembolso-o num fósforo, compulso-o noutro, e lá está: “Conservador: um estadista que gosta das coisas más que já existem; por oposição ao Liberal, que as quer substituir por outras.” Depois de tão ilustre distinguo, fiquei ilustrado.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Some Girls Are Bigger Than Others

O homem já tem a autobiografia na canónica Penguin Classics, e aqui, na Brixton Academy, em Dezembro de 86, como se Anthony said to Cleopatra /As he opened a crate of ale, cantava o verificacionista Some Girls Are Bigger Than Others. Já sabíamos que algumas canções pop (e Bach) podem ajudar pessoas com lesões cerebrais graves a relembrar memórias pessoais, mas nunca ninguém escreveu sobre os seus efeitos tóxicos. Enquanto esperamos pelo paper, ouçamo-la pela vigésima quinta vez.