sábado, 24 de janeiro de 2015

Estes. Esses que são para o resto da vida como um cartão de visita, e que podem fazer de nós paxás dos cânones ou nababozinhos da clínica.

Estes. Esses que são para o resto da vida como um cartão de visita, e que podem fazer de nós paxás dos cânones ou nababozinhos da clínica.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O escrevedor-mor do periscópio miópico já lhe chamou o Mário Nogueira do estetoscópio, e a bloga leibniziana, que acha ser este o melhor dos mundos possíveis, agonia-se quando o homem descreve a penúria dos hospitais


O escrevedor-mor do periscópio miópico já lhe chamou o Mário Nogueira do estetoscópio, e a bloga leibniziana, que acha ser este o melhor dos mundos possíveis, agonia-se quando o homem descreve a penúria dos hospitais, a falta de auxiliares, médicos e enfermeiros, lençóis e pijamas, medicamentos e exames auxiliares de diagnóstico (tudo aleivosias torpes e corporativas, segundo eles, mas que se adentram, impressivas, até no olho não clínico do observador honesto), e vocifera quando o bastonário propõe que as administrações permitam à imprensa testemunhar in situ o que se passa. Pois a mim parece-me é que esta maltosa, que já vê o belzebu Mário Nogueira em duplicado, ou vai à privada, paga e não bufa, ou então é utente do Serviço Nominal de Saúde. Por aqui, na pasmosa coimbrinha, as amizades clínicas merecem o muito cuidadoso desvelo do podador de bonsais, e ter na agenda um ou dois nomes de amigos médicos, já se sabe, livra-nos da via crucis dos centros de saúde e do novo e serôdio conceito de urgência médica. E olhem que é grande a livração.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Prof/Ante a possibilidade de, com a municipalização parcial da educação, as autarquias poderem definir até 25 por cento dos curricula - manteiga em focinho de cão para alguns autarcas -, já estou a ver alguns profs a ensinarem a arte do arranjo floral ou doçaria regional. Mas as vereanças menos paroquiais preferirão o Business Coaching.

Ante a possibilidade de, com a municipalização parcial da educação, as autarquias poderem definir até 25 por cento dos curricula - manteiga em focinho de cão para alguns autarcas -, já estou a ver os profs a ensinarem a arte do arranjo floral ou doçaria regional. Mas as vereanças menos paroquiais preferirão o Business Coaching.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Mas não tenhamos ilusões: como signo de um certo retorno pendular do sagrado, o retorno do sacrílego e do blasfemo é também o retorno da violência religiosa (o sagrado pende entre o êxtase e o furor), porque, como relembra a revista Point citando Leo Strauss, as doutrinas da tradição não foram rebatidas, foram expulsas pelo riso.

Há uma cultura do ressentimento, larvar e impenitente, nos sincretismos marginais de algumas religiões: ressentimento contra a secularização das mundividências; ressentimento contra a laicidade do Estado, da Política e da Cultura (vertida na lockeana afirmação de que uma igreja é uma societas spontanea, livre e voluntária, à qual não corresponde, como na comunidade política, nenhuma necessidade ou poder coactivo sobre membros e não membros, e que deve dispor como única arma a prédica e a exortação); ressentimento pela menorização da sua influência e poder simbólico; ressentimento, enfim, contra o experimentalismo da vida moderna. Este ressentimento clérigo-obscurantista disseminou-se pelo pensamento neo-con, nos incontáveis literalistas bíblicos/corânicos, no filo-criacionismo cientista dos adeptos do Intelligent Design, e deve, naturalmente, merecer a pronta exprobração de qualquer homem ilustrado. Mas não tenhamos ilusões: como signo de um certo retorno pendular do sagrado, o retorno do sacrílego e do blasfemo é também o retorno da violência religiosa (o sagrado pende entre o êxtase e o furor), porque, como relembra a revista Point citando Leo Strauss, as doutrinas da tradição não foram rebatidas, foram expulsas pelo riso.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Graças a Deus, todas; graças com Deus, nenhuma. Numa sociedade pluralista não há lugar para o rifão piedoso da minha avó Maria, mas haverá, decerto, para o Charlie Hebdo


Em 2004, num debate entre o filósofo Jürgen Habermas e o Cardeal Ratzinger, o primeiro advogou que a compreensão da tolerância nas sociedades pluralistas reclama de crentes e não crentes o reconhecimento da persistência indefinida de um dissenso. Um dissenso, escrevemos nós, sem mútuas reverências, leis da blasfémia ou persignações dialécticas (que mesmo muitos liberais predicam e praticam), aberto ao exercício racional, à sátira, ao humor, à eironeía socrática, e àquilo que, no Viver No Fim dos Tempos, Slavoj Žižek chama uma crítica desrespeitosa e não condescendente da religião (e, mutatis mutandis, da política), isto é, uma crítica desrespeitosa das suas pretensões à posse verdade e à intocabilidade crítica da sua dogmática.

Graças a Deus, todas; graças com Deus, nenhuma. Numa sociedade pluralista não há lugar para o rifão piedoso da minha avó Maria, mas haverá, decerto, para o Charlie Hebdo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Releio em Agustina que buscamos viver uma ideia de nós próprios, e esta frase tem o laconismo enigmático de um aforismo de Nietzsche e a miríade de pixels do rosto de Sócrates na televisão. Releio John dos Passos, que queria Paris de um trago como uma ostra, e aqui está a forma mentis, e aí está o rosto a ficar mais nítido e concreto

Perguntado por que razão nunca se tinha aventurado na ficção, Eduardo Lourenço respondeu, cito de memória, que lhe faltava o sentido do concreto que a literatura acolhe. Roth, relembro agora, contrapunha antiteticamente a Literatura, essa grande particularizadora, à generalizadora Política. Mas a literatura também é capaz do universal concreto, do aparte narrativo que interpreta um tropismo cultural, da personagem que revela uma forma mentis intersubjectiva. Releio em Agustina que buscamos viver uma ideia de nós próprios, e esta frase tem o laconismo enigmático de um aforismo de Nietzsche e a miríade de pixels do rosto de Sócrates na televisão. Releio John dos Passos, que queria Paris de um trago como uma ostra, e aqui está a forma mentis, e aí está o rosto a ficar mais nítido e concreto.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Lembrem-se do Orwell: jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique

Se uma boa parte dos jornalistas, por via do caso Sócrates, não se tivesse tornado, súbito, tão denodadamente cultora do género epistolar, esse dialogo per absentiam, raro vivaz, não raro enfadonho, isto não passaria tão de sorrate pela imprensa. Lembrem-se do Orwell: jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique.