domingo, 5 de abril de 2015

Para que é que um homem de calças precisa de latim?

A este empenho, uma das densíssimas personagens de Nemésio inquiriria: mas para que é que um homem de calças precisa de latim?
Fernando de Bulhões, vulgo santo António, dizia que não é sábio quem sabe mais do que é preciso, mas o saber sobre o que é preciso aprender e ensinar carece de uma reflexão filosófica não trivial, que sobrepuje as orientações políticas liberais do sistema de ensino das democracias (entre as quais o infognosticismo e a lengalenga da ligação às empresas são exemplos risíveis), já que estas menorizam as Letras, mingam os já depauperados orçamentos dos departamentos de Artes e Humanidades, e consideram supérfluos e ociosos todos os saberes que não se concretizem numa estrita techné.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O resto são implicâncias monomaníacas do João Miguel Tavares

Para zurzir no número aventado do desemprego real proposto pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra,  estapafúrdio e hiperbólico, o João Miguel Tavares, que tem umas luzes tremeluzentes de história económica, invoca o annus horribilis de 1933 nos Estados Unidos e pergunta: Vinte-e-nove-por-cento?!? Só para termos uma noção, estima-se que a taxa de desemprego nos Estados Unidos em 1933, pleno pico da Grande Depressão, tenha batido nos 25%. Teremos nós um nível de desemprego real quatro pontos percentuais acima da maior depressão do século XX? João Miguel Tavares podia ter continuado: maior do que 23,9% dos espanhóis ( Novembro de 2014)? Maior do que os 25,7% dos gregos (Setembro de 2014)?
O resto são implicâncias monomaníacas do João Miguel Tavares, que a continência e o cautério do tempo quaresmal deviam sarar.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Prof./os terrores da performatividade


A Mitologia subjectivou-se, e a heroicidade revela-se hoje num eu performativo inscrito nas diversas esferas da existência social. O culto do indivíduo sobreactivo, que forceja insanamente para maximizar todas as suas performances na profissão, na forma física, no sexo, no consumo, no envelhecimento (nas sociedades hipermodernas de horror à senescência, envelhecer é a performance por excelência), faz parte do sincretismo ideológico hodierno. Liptovesky já escreveu bastamente sobre a cultura da performance, da superação e da excelência - todos estimulados, todos determinados a ser competitivos, a correr riscos, a chegar ao topo –, mas foi Stephen Ball quem melhor descreveu os terrores da performatividade do moderno homo docens – o professor: relatórios atrás de relatórios, actas atrás de actas, justificações atrás de justificações, avaliações atrás de avaliações, evidências atrás de evidências, exames atrás de exames.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A Vertigem das Listas/Umberto Eco gosta omnivoramente de listas, inclusive das viperinas...


Umberto Eco gosta omnivoramente de listas, inclusive das viperinas. Aguardemos a nova edição, revista e aumentada.


quinta-feira, 5 de março de 2015

Al-Karim ("o Nobre")


O teólogo Hans Küng, na sua obra Islam: Past, Present and Future, assevera que o estado do conhecimento do Islão entre muitos dos seus contemporâneos é de nível medieval. Embora imprecisa, a adjectivação confessa a ignorância cristã do Islão, que é também a ignorância da sua herança textual matricial – o Corão
.
«O primeiro monumento da língua árabe contém, segundo uma compilação do século XIII, 323015 letras, 77439 palavras, mais de 6000 versículos e 114 suratas. Um livro de modesta extensão, comparado aos mastodontes de outros monoteísmos. Mas um livro de difícil acesso, que passa de versículos de beleza selvagem a declarações longas e fastidiosas. É necessário dizer que foi feito para ser recitado, e que neste caso – dizem aqueles que são capazes – possui uma força retórica excepcional. Os outros aproveitarão em pedir aos filósofos-barqueiros que os façam passar da margem para o texto.»


                                                                                                      Philosophie Magazine

quarta-feira, 4 de março de 2015

Descartes para primeiros-ministros/Discurso Sobre o Método de Obnubilar a Razão na Busca da Verdade Dentro da Ciência Fiscal.

"Em seguida, reflectindo sobre o facto de dever, constatei, por conseguinte, que o meu ser não era completamente perfeito, pois via claramente que não dever era uma perfeição maior do que dever; lembrei-me de procurar onde aprendera a pensar em algo mais perfeito do que eu era, e soube evidentemente que devia ser de uma qualquer natureza que fosse mais perfeita, sei lá, o Wolfgang Schäuble.”

Passos, Discurso Sobre o Método de Obnubilar a Razão na Busca da Verdade Dentro da Ciência Fiscal.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Em 2012, Larry Flynt, fundador da revista pornográfica Hustler, oferecia um milhão de dólares (780 mil euros) em troca de informações sobre os impostos do candidato republicano às presidenciais norte-americanas, o milionário...


Em 2012, Larry Flynt, fundador da revista pornográfica Hustler, oferecia um milhão de dólares (780 mil euros) em troca de informações sobre os impostos do candidato republicano às presidenciais norte-americanas, o milionário Mitt Romney. Em anúncios de uma página nas edições dos jornais norte-americanos Washington Post e USA Today, Flynt mostrava-se disposto a pagar em troca de informações “inéditas sobre os impostos e/ou detalhes sobre as contas bancárias, offshores e negócios”.
Em Portugal, o fisco instaurou 137 processos por consulta indevida de dados fiscais, mas Larry Flynt tinha razão: ao contrário da nudez, nenhum obscenus deve ser castigado.