Quando não há sentença
e o «próprio processo se transforma pouco a pouco em sentença», é-se Joseph K.
Todos os magistrados sabem, com ou sem a ajuda do Der Prozess, que «estar-se
num processo semelhante significa tê-lo já perdido».
quinta-feira, 18 de junho de 2015
domingo, 14 de junho de 2015
Diário dos Perplexos/Os filhos da mãe dos filhos de Rousseau
O efeito que a paternidade pode ter sobre o intelecto de um adulto é absolutamente devastador.”
Diogo Mainardi
Rousseau sabia-o, e apressou-se a enviar a sua prole de bons selvagens para um orfanato a distância prudente. Platão recomendava que a educação fosse uma responsabilidade pública da Pólis, e os gregos criaram mil e um expedientes para libertar os adultos da coexistência pouco filosófica e racional com os juvenis. O pedagogo - escravo incumbido da penosa missão de levar a criança à escola - é a figura da atemporal servidão a que as crianças submetem os adultos, para a qual não se prefigura nenhuma salvífica emancipação (a pedagogia obriga-se hoje a ocupação similar: em vez de levá-las à escola, tenta mantê-las lá).
quinta-feira, 21 de maio de 2015
E é por isto que, sem emparceirar com o Borges que dizia ser o futebol uno de los mayores crímenes de Inglaterra, não posso deixar de pensar, afora o gosto genuíno da bola, serem muitos e vários os empenhos, manias e tinetas, que levam o povo do futebol aos estádios...
Lembro-me dele
sacristão, meão, nariz purpúreo e varicoso, caraça larga. De manhã, acolitava à
missa muito pio e tolhido de amor enteu, hinário na ponta da língua, minudente
no lustro das alfaias sagradas e arrumo da sacristia. De tarde, secular, acudia
pelo União Clube E., trocava o turíbulo pelo guarda-chuva com cabo de nogueira
velha, postava-se cinematicamente atrás da linha lateral, sempre no enfiamento da
jogada, e, brandindo o “mata-cães” que rasava o casco do fiscal de linha, vociferava: Ah cão, que te desanco!
Mais tarde, rapazote, ia
aos jogos do campeonato distrital de futebol da Associação de Coimbra -
entidade promotora de um desporto jogado com os pés, mãos e cabeças perdidas,
por duas equipas de onze jogadores, três árbitros e duas hordas -, desandava à
aguada no intervalo e quedava-me por aí até ao fim, sem cuidar de jogo e
resultado, a emborcar minis à compita.
E é por isto que, sem
emparceirar com o Borges que dizia ser o futebol uno de los mayores crímenes de Inglaterra, não posso deixar de
pensar, afora o gosto genuíno da bola, serem muitos e vários os empenhos,
manias e tinetas, que levam o povo do futebol aos estádios: há os adeptos da
fraternidade máscula e do chega pra lá;
há os recordistas das minis, jantaristas e outros atletas da terceira parte; há os
pobres de Deus a quitarem-se à dobadoira verbal domingueira das patroas; há, vá
lá, aqueles que vêem no jogo a quinta- essência da virtude táctico-estratégica
do engenho humano.
Recordo estas estorietas
porque, domingo passado, represo no sopor televisivo-repetitivo da garrafada
para aqui, bastonada para acoli, vejo de repente em picado um guarda – chuva a
altear-se, um grande plano, lobrigo o sacrista Adrião e, lendo a juntura dos
lábios, ouço-o vociferar: Ah cão, que te desanco! Que acode, ainda acode; só
não sei é se acolita.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
compreendi que a filosofia não nasce do espanto, mas sim do daimon maligno da mulher rixosa, e que todos os homens casados são espontaneamente filósofos ou, em alternativa, divorciam-se e vão estudar filosofia para Paris...
Depois de ler, em
Platão, o que aqueloutro Sócrates alvitrou sobre o casamento - "Em todo o
caso, casai-vos. Se vos couber em sorte uma boa esposa, sereis felizes; se vos
calhar uma má, tornar-vos-eis filósofos, o que é excelente para os homens” –,
compreendi que a filosofia não nasce do espanto, mas sim do daimon maligno da mulher rixosa, e que
todos os homens casados são espontaneamente filósofos ou, em alternativa, divorciam-se e vão
estudar filosofia para Paris.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Porque é que todos os humoristas da rádio e da televisão são de esquerda?, pergunta o Rui Ramos aqui. Um espírito como Leo Strauss diria que as doutrinas da tradição não foram rebatidas, foram expulsas pelo riso, e, por isso, o riso seria da revolução e concitaria o rancor da direita...
Porque é que todos os
humoristas da rádio e da televisão são de esquerda?, pergunta o Rui Ramos aqui.
Um espírito como Leo
Strauss diria que as doutrinas da
tradição não foram rebatidas, foram expulsas pelo riso, e, por isso, o riso
seria da revolução e concitaria o rancor da direita: Deus, por exemplo, é hoje
um caso consabido de absent(e)ismo, foi corrido da história, do espaço-tempo,
da eternidade (duração indefinida com demasiados tempos mortos e na qual não se
pode morrer de tédio), e tem uma mera
existência particulada e indiciária ( o bosão de Higgs, a Goddamn Particle!).
Bergson daria o beneplácito e dirá também que o riso é de esquerda quando
enumera as fulgurações e causas do cómico e realça a rigidez da forma, física ou espiritual, individual ou colectiva,
que conduz à exaustão, primeiro, e à assuada social, depois. Ora, nada há de
mais rígido do que o Poder, que, por via desta rigidez, é sempre de direita. O
Poder é sempre, ao contrário do humor, maniqueu, integrista, e um manancial
inextinguível para os chalaceiros (Joseph Conrad escreveu ser o governo em geral, qualquer governo em
qualquer lado, uma coisa de comicidade excelente para uma mente inteligente).
Era esta rigidez maniqueísta do poder soviético, imediatamente percebido como de direita, que motivava o anedotário do
gentio na URSS, empenhado em votar à derrisão tal maniqueísmo. «- Bem vistas as coisas, que é o
capitalismo? – É a exploração do homem pelo homem. - E o comunismo? –
Exactamente o contrário.»
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Quem é o amigo? Quem é amigo, quem é?!/Cícero para Passos e Dias Loureiro
De Aristóteles a
Blanchot e Agamben, de Cícero a Derrida e Dworkin, passando por Montaigne, a
aporia ética teima e recalcitra: o que é
o amigo? Quem é o amigo?
Pelo rabo do olho, no
fundo da sala, Pedro Passos Coelho lobriga Dias Loureiro e, todo encómios, sebo
e unto, lustra-lhe o deslustrado carácter, perguntando num ceceio: quem é amigo, quem é?! E eis a indagação
a que convirá a resposta ciceroniana do De
Amicitia: um amigo é como um outro eu.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Prof/Isto de obrar impossíveis de quotio é coisa para santarrão de aldeia ou pastor da IURD: ensinar o inensinável a quem não quer aprender...
Isto
de obrar impossíveis de quotio é
coisa para santarrão de aldeia ou pastor da IURD: ensinar o inensinável a quem
não quer aprender é o ofício nosso de cada dia. Com tal feito m`espanto às vezes, outras m`avergonho,
mas rareia o dia em que, olhando estoicamente para eles e para mim, não
rememore a sageza de Epicteto: todos os
lugares são prisões se não desejamos lá estar.
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