Mais uma revolução copernicana.
Não se augura nada de bom: as reuniões intermináveis de apresentação do modelo,
o encarniçamento burocrático das actas e actinhas, a coacção à formação, a
ideologia gestionária da avaliação e do Excel(ente). Também em educação, a
coisa tem pendido entre o conservador, "cioso de manter os males
existentes", e o liberal, "que deseja substituí-los por outros".
Temor e tremor!
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
São estas refalsadas mentiras que ilustram o conceito de pós- verdade. Toda a gente sabe que desde o De Generatione Animalium, de Aristóteles, está provado que o sexo do nascituro é sempre o sexo do genitor que foi mais enérgico durante a função
São estas refalsadas mentiras que
ilustram o conceito de pós- verdade. Toda a gente sabe que desde o De
Generatione Animalium, de Aristóteles, está provado que o sexo do nascituro é
sempre o sexo do genitor que foi mais enérgico durante a função. Enérgico,
Yaroslav Korobatov, tão somente enérgico! Se quiser um rapaz, é claro que a
ideia godardiana de "sexo e lassidão" não resultará. Mas não é
necessário andar à porrada, Yaroslav Korobatov! Energia, pura energia!
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Agustina e o onanismo de telemóvel
Agustina Bessa Luís chamou ao automóvel de luxo fetichizado pelo homem o “terceiro tomate” e escreveu algures que “todos os orifícios existem para dar prazer”. Receio que os livros de Agustina também não possam fazer parte do Plano Nacional de Leitura. Extremosíssimos pais, em vez dos livros do Valter Hugo Mãe e da Agustina Bessa Luís, que podem fazer soar a estrídula campainha da pornografia e a pavloviana salivação da moral, ofereçam telemóveis aos vossos juvenis. A Agustina explica por que razão o onanismo do telemóvel é o único acto sexual que podeis permitir.
"O telemóvel tomou o lugar da intimidade em que a carícia e o olhar são uma forma de maturidade sexual. Objecto masturbante, o telemóvel é um traço arcaico do neurótico e, por isso, tão rapidamente adoptado. Não podendo ser um condutor do pensamento, ganhava em popularidade por dar um conhecimento acessório sobre os sonhos e a vida quotidiana."
Agustina Bessa Luís - O Princípo da Incerteza
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
O misógino de Cícero padece de uma enfermidade que procede da coisa que teme e atrai.
O misógino de Cícero padece de uma enfermidade que procede da coisa que teme e atrai. E é de tal modo assim que Cesare Pavese, varado por dor erótica crudelíssima, escreveu no seu diário "O Ofício de Viver": "As mulheres mentem, mentem sempre e custe o custe o custar. E não é de admirar: a mentira está contida nos seus próprios genitais. Quem é que alguma vez saberá quando é que uma mulher gozou." Na ocasião, era de Abelardo a máxima de Pavese: duvidando, chegamos à verdade.
domingo, 16 de outubro de 2016
Um dia uma mulher, talvez extasiada pela sageza sibilina de Agustina em alguma entrevista televisiva, abordou-a na rua e disse-lhe que gostava tanto dela "que um dia ainda lia um livro seu"
De um amigo meu nos 94 anos de Agustina:
"Como um vade mecum literário para ler o mundo dos homens quando os não percebo, guardo dezenas de citações manuscritas dos romances de Agustina. Leio-as sempre com o espanto renovado de quem vê eclodir um ovo, isto é, a aparição de uma sabedoria natural primigénita. Sem a paciência do conceito ou a motilidade do argumento, os livros de Agustina estão pejados da sabedoria do concreto a que só a literatura acede, sem academia ou sistema.
Um dia uma mulher, talvez extasiada pela sageza sibilina de Agustina em alguma entrevista televisiva, abordou-a na rua e disse-lhe que gostava tanto dela "que um dia ainda lia um livro seu". Se o leu, tornou-se mais sabedora, porque, glosando uma dessas citações, o que Agustina sabe dá para arrasar montanhas."
Puta que pariu a literariedade!
Hey, Mr. Tambourine Man!
Alegraram-se os salmistas, Homero e Safo, os troubadours da langue d'oc e os poetas isabelinos, os letristas e os compositores do American Songbook e o Alex Ross. Mas os zelotas da literariedade, não! Puta que pariu a literariedade!
Alegraram-se os salmistas, Homero e Safo, os troubadours da langue d'oc e os poetas isabelinos, os letristas e os compositores do American Songbook e o Alex Ross. Mas os zelotas da literariedade, não! Puta que pariu a literariedade!
Sheffield's classical music
Há a classical music, a america's classical music e, por estranho que pareça, também há a Sheffield's classical music. Música seriíssima.
Quando se trata de ciência da reprodução humana e de sexo, estamos falados: vale tudo.
Quando se trata de ciência da reprodução humana e de sexo, estamos falados: vale tudo. Quanto à ciência, Arthur C. Clarke, nas suas leis sobre os limites do "possível tecnológico”, afirma que “o único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se além dele”, e que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. Quanto ao sexo, sabemo-lo, “vale tudo, menos legumes”, como diz (?!) uma personagem do Luís Fernando Veríssimo que perdeu a namorada porque lhe disse que “o seu limite era o pepino” (e davam-se tão bem – “ela também era do coral da igreja”). Glosando o autor do “ABC do Amor”, “eu acho que o sexo é uma coisa muito bonita entre duas pessoas”. Entre três, “então, é fantástico!” (mesmo que a única coisa a trocar seja assexuado material genético).
Estudando o Samba
Toda a gente sabe a história do disco de Tom Zé que, editado em 1976, viveu na "clandestinidade" mais de uma década e só foi dado a ouvir aos brasileiros e ao mundo por David Byrne no final da década de 80. Ainda há gente perplexa, em estado catatónico e estupor musical. Não é caso para menos.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
"Negro é o carvoeiro, branco é o seu dinheiro".
Ora, não há que enganar! Não mais que um vulgarismo de sabedoria rústica, é quanto pede a boa nova da adoração ao menino dos Santos. Aqui vai, a contrapêlo dos polícias da linguagem e com a ajuda do Mestre Aquilino: "Negro é o carvoeiro, branco é o seu dinheiro".
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
A crer no Cícero do De Senectute, foram as mercês da velhice - e não as da sabedoria ou da razão - que lhe permitiram ignorar os "prazeres sensuais...
A crer no Cícero do De Senectute, foram as mercês da velhice - e não as da sabedoria ou da razão - que lhe permitiram ignorar os "prazeres sensuais, os festins, as mesas a abarrotar, as taças sem conta", e eliminaram "aquela ânsia de fazer o que não devia ser feito". Por ora o beber ainda é escorreito, embora sem a escorrência pretérita de olho marinho; os apetites são assertivos, embora ponderosos e vigiados pelo hemograma; o que nao devia ser feito continua a ser feito. Mas não há que enganar: num fósforo estou na fase da sabedoria trágico-geriátrica do Cícero.
domingo, 3 de julho de 2016
Houve um tempo em que a sofisticação pop não tinha a duração de um videoclipe e, iludida, namorava o classicismo. Tinha uma poética e foi eterna enquanto durou. Mas foi um amor durázio.
Houve um tempo em que a sofisticação pop não tinha a duração de um videoclipe e, iludida, namorava o classicismo. Tinha uma poética e foi eterna enquanto durou. Mas foi um amor durázio.
terça-feira, 28 de junho de 2016
"Old England is Dying"
Para citar os Waterboys
de Mike Scott (não me ocorre ninguém da alta cultura, desculpem lá!), "old
england is dying". Dois brexits numa semana é bizarria a mais. Até para a
rapaziada que tem uma câmara dos lordes e inventou o Harry Potter, "o
rapaz ocultista".
segunda-feira, 27 de junho de 2016
Aturdido ainda com os zumbidos e tremedouros da ressaca do Brexit, balanço-me para leitura tempestiva, com especial delonga nos seguintes capítulos: " Os políticos deles são tão debochados que fazem o Clinton parecer um rapazinho de coro"; "Eles veneram um gigante relógio-deus como o símbolo vivo da autoridade do estado"...
Aturdido ainda com os
zumbidos e tremedouros da ressaca do Brexit, balanço-me para leitura
tempestiva, com especial delonga nos seguintes capítulos: " Os políticos
deles são tão debochados que fazem o Clinton parecer um rapazinho de
coro"; "Eles veneram um gigante relógio-deus como o símbolo vivo da
autoridade do estado"; "Eles deram o primeiro emprego a Karl
Marx"; "Eles caçam animais espertos com animais burros, por
desporto"; Eles inventaram e propagaram a teoria do estado de bem-estar
social"; Eles transformaram o futebol no jogo do mundo".
Enfim, tudo o que o
genuíno albufeirense e o presidente de conselho europeu devem saber, mas têm
vergonha de perguntar.
terça-feira, 21 de junho de 2016
"O grande escritor visto de costas"
“ (…) O mínimo que se
pode pedir a um grande escritor é, por isso, que tenha automóvel. Tem de viajar
muito, ser recebido por ministros, fazer conferências, dar aos líderes da
opinião pública a impressão de que representa uma força moral não desprezível.” (…)
Robert Musil, O Homem sem
Qualidades
segunda-feira, 20 de junho de 2016
A Islândia não é só a terra dos gigantes que queriam esmagar a cabeça do Ronaldo. Também por lá habitam gnomos com voz de elfo que se metamorfoseiam pelo canto.
A Islândia não é só a terra dos gigantes que queriam esmagar a cabeça do
Ronaldo. Também por lá habitam gnomos com voz de elfo que se metamorfoseiam
pelo canto. Cuidado com eles!
Em parceria literária com Adolfo Bioy Casares, Jorge Luís Borges escreveu um conto sobre um país em que os fanáticos do futebol descobrem, perplexos, que o futebol deixou de existir...
Em parceria literária com Adolfo Bioy Casares, Jorge Luís Borges
escreveu um conto sobre um país em que os fanáticos do futebol descobrem,
perplexos, que o futebol deixou de existir no dia 24 de Julho de 1937 (o conto
intitula-se-se, filosoficamente, “Esse Est Percipi”). Os estádios derruíram, e
o que os amantes desse desporto passaram a ver e ouvir na rádio e na televisão
(“hoy todo pasa en la televisión y en la radio”) é um mero género dramático, a
cargo de um só homem numa cabina ou levado a cabo por vários actores equipados
em frente a uma câmara.
Ontem, findo o jogo e mal os relatadores anunciaram a “confraria do comentário do futebol na TV”, lembrei-me deste conto e, ansiado e aziado, premi nesse comenos o botão do comando. Offside.
Ontem, findo o jogo e mal os relatadores anunciaram a “confraria do comentário do futebol na TV”, lembrei-me deste conto e, ansiado e aziado, premi nesse comenos o botão do comando. Offside.
"Numa sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, de trabalhadores privados da única actividade que lhes resta", sobeja ser ministro para poder vir a ter o melhor emprego do mundo - ser ex-ministro.
No "L'Euphorie Perpetuelle - Essai Sur Le Devoir De Bonheur",
escreveu Pascal Bruckner que a sobrecarga de trabalho se tornou num "sinal
ostentatório de potência". Diz Bruckner que, "embora as classes
laboriosas aspirem à ociosidade, as classes ditas ociosas tornaram-se laboriosas,
fixando-se para si próprias semanas de 60 a 80 horas e exibindo o excesso de
trabalho como índice da sua superioridade". "Numa sociedade de
trabalhadores sem trabalho, isto é, de trabalhadores privados da única
actividade que lhes resta", sobeja ser ministro para poder vir a ter o
melhor emprego do mundo - ser ex-ministro.
Cada intervenção pública de Marcelo ilustra, com mestria e exemplaridade antológica, o conceito de auto-contradição performativa...
De cada vez que Marcelo acha, crê, assevera, garante, jura e trejura, o
acto linguístico da sua enunciação gera, paradoxalmente, o contrário do que
achou, acreditou, asseverou, garantiu, jurou e trejurou. Se Marcelo
"garante estabilidade, pelo menos até às autárquicas", enunciá-lo é
começar a socavar essa estabilidade. Se Marcelo "não acha que o Governo vá
cair por causa das autárquicas", então o governo já começou a cair por causa
das autárquicas. Cada intervenção pública de Marcelo ilustra, com mestria e
exemplaridade antológica, o conceito de auto-contradição performativa, isto é,
se Marcelo asseverasse que Cristo não ia descer à Terra, começariam a ouvir-se,
num ápice, as trombetas do apocalipse.
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