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terça-feira, 21 de junho de 2016

"O grande escritor visto de costas"

“ (…) O mínimo que se pode pedir a um grande escritor é, por isso, que tenha automóvel. Tem de viajar muito, ser recebido por ministros, fazer conferências, dar aos líderes da opinião pública a impressão de que representa uma força moral não desprezível.” (…)


Robert Musil, O Homem sem Qualidades

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Internacional Citacionismo/ Magris: "Chegou a hora em que sair do Partido Comunista já não é a perda da totalidade e isso poderá ser uma razão para se não sair dele".

« Os que romperam com o comunismo estalinista deixaram-nos uma grande lição, porque conservaram do marxismo a imagem clássica e unitária do homem, uma fé no universal-humano que por vezes se exprime, com ingenuidade, nas formas narrativas do passado. Mas a sua humanidade, que das derrotas precoces dos sonhos havidos não concluía pela legitimidade de uma licença intelectual irresponsável, é muito diferente da leviandade dos actuais órfãos do marxismo, que, desiludidos por este último se não ter revelado o «abre-te Sésamo» da história se entregam a estridentes ataques contra aquilo que ontem ainda lhes parecia sagrado e infalível.
(…)
Ficarmos órfãos das ideologias é natural, como o é ficarmos órfãos dos nossos pais; é um momento doloroso, que não implica, contudo, a dessacralização do pai perdido, pois não significa afastarmo-nos do seu exemplo. A militância política não é uma igreja mística onde tudo está em tudo, mas um trabalho quotidiano, que não redime de uma vez por toda a Terra e se encontra exposto a erros, mas permanecendo pronto a corrigi-los. Também para o marxismo chegou a hora liberal desta laicidade, que não aceita idólatras nem órfãos do Vietname, mas forma personalidades maduras, capazes de enfrentar as desilusões sempre recorrentes. Chegou a hora em que sair do Partido Comunista já não é a perda da totalidade e isso poderá ser uma razão para se não sair dele. »

Claudio Magris

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Internacional Citacionismo/Dois em um: Slavoj Žižek e Saramago para julgar banqueiros…

"Talvez José Saramago estivesse certo quando propôs tratar os responsáveis dos grandes bancos e todos os outros responsáveis pelo colapso como culpados de crimes contra a humanidade, cujo lugar é o Tribunal de Haia; talvez não se devesse tratar esta sua proposta como um mero exagero poético ao estilo de Jonathan Swift, mas levá-la a sério. Isto, no entanto, nunca acontecerá, uma vez que, depois da doutrina do banco demasiado grande para falir (sendo a lógica por trás disto que a sua bancarrota teria consequências catastróficas para toda a economia), temos agora a doutrina do banco demasiado grande para ser indiciado (uma vez que, pode dizer-se, o seu indiciamento teria consequências catastróficas para o estado financeiro e moral das elites governantes)."


Slavoj Žižek, Problemas no Paraíso.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Internacional Citacionismo/Munro para ambientalistas

Os meteoros não estão para bucolismos. Os neorrurais que, acossados pelo desemprego e provações da vida citadina, quiseram mudar de vida e provar as amenidades dulcíssimas do campo e da natureza estão bem arranjados. Na Beira há campos para lavrar e estrumar, vinhedos para podar, mas a meteorologia está inclemente. Aí, a Natureza persiste na sua natureza e arremete agreste e indócil. É tempo, pois, para citar Munro: People who openly admired nature – or who even went so far as to use that word, Nature – were often taken to be slightly soft in the head.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Internacional Citacionismo/Millôr


Poeminha Tentando Justificar Minha Incultura

Ler na cama
É uma difícil operação
Me viro e reviro
E não encontro posição
Mas se, afinal,
Consigo um cómodo abandono,
Pego no sono.

Millôr Fernandes

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Internacional Citacionismo/A Very Little History of Philosophy



Depois de A Little History of Philosophy, Nigel Warbuton faz no seu blog, virtual philosopher, um exercício intitulado A Very Little History of Philosophy. A filosofia sempre falou grego e demais, por isso o que se segue não é a logomaquia ateniense, não é o laconismo espartano, é um exercício de micro-historiografia automática.



Socrates: Let’s talk about it.
Plato: Hey caveman, get real!
Aristotle: Eudaimonia or you die moanier.
Epicurus: Death? Not my problem.
Descartes: You’re not dreaming.
Spinoza: I’m not into bondage.
Locke: You look blank.
Berkeley: Ideaology
Hume: You’re a natural.
Rousseau: Chain reaction.
Burke: You say you want a revolution…
Kant: Cool shades, but you can’t take them off.
Hegel: Synthetic fabric.
Bentham: Harmless fun.
Mill: Don’t be a pig.
Marx: Glory, glory, man united!
Kierkegaard: Jump!
Peirce: An icon
(Husserl)
Frege: What are you referring to?
Russell: What do you mean there’s no king of France?
Wittgenstein: I’m not going to tell you.
Ayer: Logical positivism – hooray!
Popper: Unconvince me.
Sartre: Don’t wait!
Camus: It’s only rock and roll but I like it.
Rawls: Justice for reasonable people.
Rand: Justice for nutters.
Foot: Track changes.
Kuhn: Can you believe this shift?
Derrida
Singer: Good bye pork pie.
Zizek:
Sandel: You sold what?

Nigel Warburton, virtual philosopher



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Internacional Citacionismo - da verdade

«Não seja tão convicto. Não existem verdades absolutas.»
«Eu sei. Mas existe a verdades simples, não existe?»

Rubem Fonseca - Bufo & Spallanzani

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Internacional Citacionismo - Teoria do Conhecimento

Poesia sobre a teoria do conhecimento
(epistemologia)

Era uma vez uma pequena
chamada Lia
que dizia
que quando um rapaz a convidava
a um coquetel
ela já sabia
o que ele queria.
Sabia
mas ia.

Millôr Fernandes

sábado, 1 de outubro de 2011

Internacional Citacionismo



Há lá coisa mais excitante do que o lugar-comum

Baudelaire

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Internacional Citacionismo – Regresso às Aulas




A única coisa que deveríamos ensinar aos jovens é que não há nada, digamos quase nada, a esperar da vida. Imagine-se um Quadro das Decepções onde constariam as desilusões reservadas a cada um de nós, e que seria afixado nas escolas.

E.M. CIORAN

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Internacional Citacionismo - A Gastrofilia de Cioran

Uma moda filosófica impõe-se como uma moda gastronómica: não há qualquer diferença entre contestar uma ideia ou um molho.

E.M.Cioran

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Internacional Citacionismo ( Coimbra - Avenida Brasil)


«Quando finalmente a Universidade de Coimbra reabre as portas aos calouros depois do «saneamento» que se seguiu à Revolução dos Cravos, em Janeiro de 1976, assiste a algumas aulas caóticas com duzentos alunos em anfiteatros imensos – e mais uma vez vive o sentimento claustrofóbico de que tem de respirar em outra parte. Súbito, detesta Coimbra. De repente, parece que tudo ali lhe faz mal – a solidão brutal, principalmente. Está cansado de estrangeiros. Até o sotaque lusitano o irrita. Aquele conservadorismo pesado; aquelas mulheres de preto; aquela gosma da Idade Média. Os chavões da esquerda; os chavões da direita. Lá está ele, de novo solitário, metaforicamente com a mala na avenida Brasil, tomando o ônibus de volta.»

Cristovão Tezza, O Filho Eterno

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Internacional Citacionismo ( "Há uma filosofia da nutrição?")



«Le goût et l'olfaction sont les plus décriés des cinq sens car ils montrent à l'envi combien l'homme qui pense et médite est doublé d'un animal qui renifle et goûte. D'où le discrédit jeté sur toutes les activités esthétiques qui en appellent aux saveurs et aux odeurs, donc aux arts de la cuisine et des alcools.
Ce livre propose de conférer la dignité philosophique qui leur manque aux domaines de la table et de répondre positivement à la question de Nietzsche : y a-t-il une philosophie de la nutrition ?
Pour ce faire, La Raison gourmande invite [...] à des pérégrinations au cours desquelles on verra Leibniz expliquer la théorie des bulles à Dom Pérignon, Grimod de la Reyniêre inventer la critique gastronomique à partir de la scéne théâtrale, Noé servir de prétexte jubilatoire à l'ivreté, Brillat-Savarin accéder au rang de philosophe grâce à une truffe et à un utérus, Carême réaliser son désir d'être architecte en devenant cuisinier, l'art conceptuel expliquer la Nouvelle Cuisine.»

M. Onfray

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Internacional Citacionismo ( "FMI O Heróico Paranóico 'Hara-Quiri'")



"O projecto de base do FMI passou a ser o de forçar os Estados a abandonarem os programas sociais keynesianos e a adoptarem políticas monetaristas. Dita às economias fragilizadas e pobres uma fórmula neoliberal que implica a redução ao mínimo das despesas sociais, a privatização da indústria e do sistema de saúde públicos e a redução da dívida pública. Esta fórmula, que passou a ser conhecida pelo nome de "consenso de Washington", foi desde o início objecto de críticas vindas do exterior, mas também do interior, das instituições económicas supranacionais.
(...)Depois dos desastres económicos do Sudeste Asiático em 1997 e da Argentina em 2000, cuja culpa foi atribuída ao FMI,o modelo passou a ser ainda mais amplamente contestado. E contudo, apesar destas críticas e dos seus fracassos económicos, o FMI continua a ditar políticas monetaristas neoliberais, e estas permanecem em grande medida as mesmas que antes."

Hardt, Michael; Negri, Antonio - Multidão: Guerra e Democracia na Era do Império

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Internacional Citacionismo (Michel Houllebecq e a Aritmética da Dor)



Michel Houllebecq ganhou hoje o Goncourt com o romance La Carte et le Territoire, edição Flammarion. Uma citação neurasténica à bolina da actualidade. Para quem não acredita na Beatitude.

" Todos temos na cabeça uma perspectiva simples do futuro: virá um dia em que a soma dos prazeres físicos que podemos esperar da vida é inferior à soma das dores."

Michel Houllebecq - Les Particules Élémentaires

sábado, 16 de outubro de 2010

Internacional Citacionismo (Leituras da Crise)



Tenho um amigo que se compraz amiúde em pronunciar alto o nome de um governante e, quando a retentiva lhe acende a catadura do ministro ou sucedâneo no hemisfério lateral direito, rir desbragadamente. Joseph Conrad fazia o mesmo para se livrar da neurastenia. Dois sages homens sérios, o meu amigo e Joseph Conrad.

"Claro que o governo em geral, qualquer governo em qualquer lado, é uma coisa de comicidade excelente para uma mente inteligente."

Joseph Conrad - Nostromo

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Internacional Citacionismo (Viajar: As Grandes Evasões Bárbaras)


"O turismo é o grande soporífero. É um enorme conto do vigário e dá às pessoas a ideia perigosa de que existe alguma coisa interessante nas suas vidas."

"Viajar é a última fantasia que o século XX nos deixou, a ilusão de que ir a algum lado nos ajuda a reinventarmo-nos."

"Todas estas viagens? Convenhamos, são uma ilusão. Viajar de avião, toda esta coisa de Heathrow, é uma fuga colectiva da realidade. As pessoas vão até aos balcões do check-in e por uma vez nas suas vidas sabem para onde vão. Pobres bestas, está impresso nos bilhetes."

J.G.Ballard - Gente do Milénio

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Internacional Citacionismo (Leituras da Crise)



Em 2003 Ballard publicava Millennium People e augurava a rebelião da classe média londrina, num simulacro de distopia urbana "onde os actos desprovidos de significado são os únicos que parecem ter significado".
Mas mesmo quando a rebelião estava iminente, sobejava sempre uma minúcia middle class: a que horas é que se almoça?

" As classes médias pretendem ser a âncora social, todo aquele sentido do dever e responsabilidade. Mas os cabos estão a esticar. As qualificações profissionais não valem nada - um curso de humanidades é como um diploma de origami. Quanto à segurança é inexistente. Um computador qualquer nas finanças decide que as taxas de juro sobem um ponto e eu devo ao banco outro ano de trabalho árduo."

J.G.Ballard - Gente do Milénio