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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O misógino de Cícero padece de uma enfermidade que procede da coisa que teme e atrai.

O misógino de Cícero padece de uma enfermidade que procede da coisa que teme e atrai. E é de tal modo assim que Cesare Pavese, varado por dor erótica crudelíssima, escreveu no seu diário "O Ofício de Viver": "As mulheres mentem, mentem sempre e custe o custe o custar. E não é de admirar: a mentira está contida nos seus próprios genitais. Quem é que alguma vez saberá quando é que uma mulher gozou." Na ocasião, era de Abelardo a máxima de Pavese: duvidando, chegamos à verdade.





terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sex Files/ama e começa onde quiseres

Para os seres humanos o sexo tem três grandes funções - reprodutora, relacional e recreativa - e a nova desordem amorosa glosa o mote de Agostinho: ama e começa onde quiseres. Mas não esqueças que há o Alfa e o Omega, o primeiro e o derradeiro, e rememora as palavras sages do Abominável (César das Neves): não há almoços grátis.
 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Prof./como falar de sexo sem falar de sexo?

De novo. Plano de educação sexual para aplicar no presente ano lectivo. O problema useiro e vezeiro: como falar de sexo sem falar de sexo? A Razão Biológica ou a geleia da Retórica dos Afectos? 
O negro Eros é pedagogicamente intratável, mas alguém propõe (valha-me Deus! Abrenuncio!): a caixa das perguntas difíceis e anónimas.

No High Fidelity, Nick Hornby coloca Bob Flemming, personagem com uma vida tumultuada pelo ordálio do sexo e do desejo, a idear as seguintes perguntas para fazer ao pai: Pai, alguma vez tiveste de te preocupar com o orgasmo feminino tanto na sua forma clitoriana ou na sua (possivelmente mítica) forma vaginal? Sabes verdadeiramente o que é o orgasmo? E o ponto G? O que é que significava “ser bom na cama” em 1955, se é que significava alguma coisa? Quando é que o sexo oral foi importado para a Grã-Bretanha? Tens inveja da minha vida sexual, ou parece-te tudo uma carga de trabalhos? Alguma vez te preocupaste com o tempo que te aguentavas, ou não pensavas nesse tipo de coisas na altura? Não estás contente por nunca teres tido de comprar livros de comida vegetariana como primeiro passo para saltar para cima de alguém? Não estás contente por nunca teres precisado de ouvir “Tu podes ser óptimo, mas limpas a sanita?”

A crer em Platão, chegado aos oitenta Sófocles regozijou-se por se ter quitado da servidão raivosa e selvagem ao negro Eros. Depois tornou-se senhor de si e morreu.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Sex Files/ Até Onde Se Pode Ir?

Um texto recente da blogosfera relembrou-me o jovial Até Onde Se Pode Ir?, no qual David Lodge biografou as vidas eróticas de um grupo de estudantes universitários católicos ingleses, nascidos no pós-guerra, e para os quais a revolução sexual chegou tarde de mais. Nados e desmamados na ortodoxia vaticanista do Catolicismo, rigorista e sexófoba, a via profana do sexo pré-marital, marital, extra-marital, pós-marital, é uma via crucis de temores e ardores, dúvidas e aporias: o que se pode fazer? Quais os limites?

No Mau Tempo no Canal, escreve Nemésio a certa altura que o caminho da castidade é mui árduo e encosta arriba, e Lodge, especialista na efabulação ético-religiosa, faz percorrer as suas personagens metade desse caminho, expondo-as às aporias decorrentes do Concílio Vaticano II e da encíclica Humanae Vitae e romanceando uma das vexatae quaestiones da Igreja – o sexo católico -, sobre a qual, em boa verdade, um certo catolicismo prefere passar como cão por vinha vindimada.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sex Files/ O Negro Eros


No High Fidelity, Nick Hornby coloca Bob Flemming, personagem com uma vida tumultuada pelo ordálio do sexo e do desejo, a idear as seguintes perguntas para fazer ao pai: Pai, alguma vez tiveste de te preocupar com o orgasmo feminino tanto na sua forma clitoriana ou na sua (possivelmente mítica) forma vaginal? Sabes verdadeiramente o que é o orgasmo? E o ponto G? O que é que significava “ser bom na cama” em 1955, se é que significava alguma coisa? Quando é que o sexo oral foi importado para a Grã-Bretanha? Tens inveja da minha vida sexual, ou parece-te tudo uma carga de trabalhos? Alguma vez te preocupaste com o tempo que te aguentavas, ou não pensavas nesse tipo de coisas na altura? Não estás contente por nunca teres tido de comprar livros de comida vegetariana como primeiro passo para saltar para cima de alguém? Não estás contente por nunca teres precisado de ouvir “Tu podes ser óptimo, mas limpas a sanita?”
A crer em Platão, chegado aos oitenta Sófocles regozijou-se por se ter quitado da servidão raivosa e selvagem ao negro Eros. Depois tornou-se senhor de si e morreu.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SeX Files/Playboy ou National Geographic?




Žižek escreveu que um dos elementos-chave do nosso fascínio pelo reino animal é representado pelos seus rituais nupciais perfeitamente regulados: os animais não precisam de se preocupar com todas as fantasias e estimulações complexas que o desejo sexual requer porque, escreve Žižek citando Gérard Wajcman, são capazes de uma relação sexual sem história, sem linguagem, sem literatura. O mundo animal do documentarismo natural realizou o sonho humano do sexo sem história nem histórias (sem mythos, diria Aristóteles; sem plot, dirão os narratólogos), e essa pode ser a razão suficiente para pegar no comando, zarpar, passar pelo canal Playboy como cão por vinha vindimada, e abicar ao National Geographic.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Larry Flint Vs. Mitt Romney


Larry Flynt oferece um milhão pelo registo fiscal de Mitt Romney

Larry Flynt, fundador da revista pornográfica Hustler, está a oferecer um milhão de dólares (780 mil euros) em troca de informações sobre os impostos do candidato republicano às presidenciais norte-americanas, o milionário Mitt Romney, noticiou a revista AdWeek.
Em anúncios de uma página nas edições deste domingo dos jornais norte-americanosWashington Post e USA Today, Flynt mostra-se disposto a pagar em troca de informações “inéditas sobre os impostos e/ou detalhes sobre as contas bancárias, offshores e negócios”.
Flynt nunca simpatizou com o candidato republicano. E as promessas de Romney de fazer uma perseguição à pornografia caso seja eleito Presidente dos Estados Unidos não ajudam.
“O que é que ele está a esconder?”, perguntou Flynt, citado pela revista Hollywood Reporter. “Talvez agora descubramos.”

(...)

Público 09/09/2012

Bem visto.
Se a pornografia é o erotismo dos outros e deve ser ocultada, já a lisura fiscal faz parte da moralidade de todos e deve ser revelada.
Make it explicit, Larry!


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sex Files/ Ovídio e a Arte da Infidelidade



Javier Marias, fescenino, definiu a fidelidade como a constância e a exclusividade com que um determinado sexo penetra ou é penetrado por outro igualmente determinado, ou se abstém de ser penetrado ou de penetrar noutros. Ora, se infidelidade não é mera cosa mentale, a sua ocultação  é cosa corporale. Escreveu Ovídio Na Ars Amatoria:

   As tuas aventuras, por melhor que as escondas, se vierem, no entanto,
                                                                                            a ser descobertas,
                  ainda que as descubram, tu, mesmo assim, nega-as até ao fim;
       nesse caso, não sejas submisso nem mais delicado do que tens por
                                                                                                costume;
                              tais atitudes são sinal evidente de sentimentos de culpa.
Pelo contrário, não poupes o teu corpo; toda a paz reside, apenas, nele:
               é na cama que tens de desmentir ter havido, antes, outra Vénus.


Ovídio, Ars, 2.409 - 414

(Tradução de Carlos Ascenso André)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

SeX Files - Até onde se pode ir?

No livro Até Onde Se Pode Ir, David Lodge biografou as vidas eróticas de um grupo de estudantes universitários católicos ingleses, nascidos no pós-guerra, para os quais a revolução sexual chegou tarde de mais. Nados, desmamados e criados na ortodoxia vaticanista do Catolicismo, rigorista e sexófoba, a via profana do sexo, pré-marital, marital, extra-marital, pós-marital, é uma via crucis de temores e ardores, dúvidas e aporias - o que se pode fazer? Quais os limites? Até onde se pode ir? Usando um anódino ardil dialógico intertextual, façamos responder a estas dúvidas uma personagem do Orgias, de Luís Fernando Veríssimo:

- Eu acho que na cama vale tudo, menos legumes. Já perdi a namorada porque disse que o meu limite era o pepino. E nos dávamos bem, ela também era do coral da Igreja.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

SeX Files - Sexo Pós-marital

A tradição judaico – cristã jungiu sexo e casamento tão estreitamente, que o primeiro era definido pelo segundo. Tínhamos então a sequente e agónica progressão erótica: sexo pré-marital, sexo marital, sexo extra-marital. Tropeçávamos no primeiro, quedávamo-nos no segundo, resvalávamos para o terceiro. Mas só no quarto, o pós-marital, descobríamos a sageza das palavras de Lord Chesterfield, escritas em missiva célebre endossada ao seu filho: «o prazer é momentâneo, a posição é ridícula, e o preço a pagar incomportável.»

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SeX Files - Provérbios do Mofino

O SexLab é um laboratório de investigação em sexualidade da universidade de Aveiro, exclusivamente dedicado à investigação experimental e psicofisiológica de diferentes aspectos da sexualidade humana, e que tem desenvolvido actividades várias de sexus mensura como a vasocongestão vaginal (fotopletismógrafo vaginal), que avaliam o nível de excitação fisiológica nas mulheres, as medidas de tumescência peniana (indium gallium gauge), que avaliam as mudanças na circunferência peniana e, mais recentemente, a concepção de escalas de medida de excitação perante a pornografia.
Recentemente, o SexLab concluiu que os homens têm tido respostas sexuais muito abaixo do que é habitual quando estão a ver filme pornográficos. As médias de excitação são próximas dos cinco (numa escala de dez), abaixo da média dos estudos de outros países europeus. Já as mulheres tiveram médias próximas ou superiores às médias europeias.
É pusilânime a fé do professo, mas o entusiasmo do converso é proverbial.

sábado, 19 de novembro de 2011

SeX Files - a nudez oferecida pela boca


Um pouco à la Bataille, Pedro Mexia escreveu no Lei Seca: "Nenhuma religião pode ser verdadeiramente casta. Não é por acaso que «adorare» significa «levar à boca»". Ipsis verbis, George Bataille: "É evidente que o tratamento do erotismo em nada é exterior ao domínio da religião, mas precisamente o Cristianismo, opondo-se ao erotismo, condenou a maior parte das religiões. Neste sentido, a religião cristã é talvez a menos religiosa das religiões".
Adorare : “ad”, movimento “em direção a”; “orare”, de “os/oris”, “a boca”, “o rosto”, “a face”. Justamente, outra vez Bataille: a nudez oferecida pela boca e pela face, "o corpo abrindo-se à continuidade através desses comportamentos secretos que nos dão o sentimento de obscenidade".

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

SeX Files - Bestiário




Muito tem feito a Eufemística e a Literatura pelo bestiário sexual. Em 1534, Rabelais descrevia no Gargantua e Pantagruel o animal de duas costas - la beste à deux doz. No Othello, Iago, que deve ter lido o francês, avisa Brabantio que a sua filha and the Moor are now making the beast with two backs, e a nossa Agustina, epigonal, refere também seminaristicamente a refrega coital como o bicho de duas costas. Mas é Martin Amis, esse mitófago, que no London Fields cria o especimen tenebroso e mítico: o animal duplo com umas só costas.

Ele dormiu com ela uma vez e uma só vez: ela fez isso para Lhe mostrar o que fica a perder para toda a eternidade. Na cama, Nicola pô-lo a cometer o acto duplamente tenebroso: o animal duplo com umas só costas. Depois nunca mais.

Martin Amis – London Fields

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

SeX Files - Parler d`amour, c`est faire l`amour


Balzac escreveu no Physiologie du Mariage que parler d`amour, c`est faire l`amour, como se o poder evocativo da linguagem fizesse disparar os neurónios da zona ventrotegmental e uma onda de dopamina nos encharcasse de prazer. Entender-se-iam assim as reservas docentes e discentes à Educação Sexual, compreender-se-ia então o rubor que enrubesce os seus titubeantes lugares retóricos, os seus circunlóquios e enrodilhamentos preliminares, a sua autovigilância e sisudez, os seus interditos e entreditos. O desafio da Educação Sexual nas escolas seria portanto este: como falar de sexo sem falar de sexo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

SeX Files - A Lei da Queda dos Graves

O sexo é um assunto da maior gravidade porque releva da queda indefesa dos corpos. Um corpo em queda, dois corpos em queda, três corpos em queda – física ou metafísica – geram sempre um sobressalto cómico, trágico, tragicómico.

"Eu acho que o sexo tem que ser entre pessoas que se amam, ou se gostam, ou se respeitam, ou então não se conhecem mas não têm nada para fazer entre as seis e as oito. Senão fica uma coisa mecânica, entende."

Luís Fernando Veríssimo

sábado, 8 de outubro de 2011

SeX Files - Sexo e Biopolítica Para Principiantes


Michel Foucault utilizou o termo "Biopolítica" para designar os dispositivos modernos que incluíram a “população”, enquanto categoria biológica, no âmbito dos cálculos explícitos levados a cabo pelo poder económico e político. Escreveu Foucault que “no âmago deste problema económico e político da população está o sexo: é preciso analisar a taxa de natalidade, a idade do casamento, os nascimentos legítimos e ilegítimos, a precocidade e a frequência das relações sexuais, a maneira de as tornar fecundas ou estéreis, o efeito do celibato ou dos interditos, a incidência das práticas contraceptivas”. O corpo erótico-sexual, energeia primigénita e força produtiva, é uma realidade biopolítica a gerir, porque «o controlo da sociedade sobre os indivíduos não se efectua somente pela consciência ou pelo ideológico, mas também pelo corpo e com o corpo.”
A inclusão da educação para a saúde e da educação sexual nas escolas, com o seu aparato legislativo e discursivo - pejado do locus amoenus dos "afectos" e sonegador do locus terribilis do prazer - cumpre, malgrado a inépcia, este intento. A sua ilusória neutralidade judicativa e valorativa relê Foucault: “O sexo não somente se julga, administra-se.”

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

SeX Files - Sexo e Evolução


A Psicologia Evolucionista é uma grande mestra. Segundo a sobredita, os nossos cérebros devem ter sido moldados segundo três princípios interligados: primeiro, fazer-nos desejar ter sexo com os melhores parceiros possíveis; segundo, assegurar a nossa própria sobrevivência para que o possamos fazer; e terceiro, proteger e sustentar a nossa descendência .
Corolário: ou a psicologia evolucionista está errada, ou, estando certa, o nosso sistema límbico ameaça meter-nos com uma tríade pior do que a Yakuza: primeiro, as amantes várias; segundo, os maridos ou parceiros das amantes; e terceiro – e venha o diabo e não escolha - , a mulher e a progenitura.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

SeX Files - AMOR É PROSA, SEXO É POESIA



Em 2004, Arnaldo Jabor, escritor e cronista carioca, conhecido em portugal através do programa Manhattan Connection e do espaço com o mesmo nome no Diário de Notícias, publicava o livro 'Amor é prosa, sexo é poesia' e reunia as suas melhores crónicas sobre as nossas obsessões, relações e ralações mais íntimas - sexo e amor, família, mulheres. Num ápice vendeu 120 mil exemplares, e uma dessas crónicas, precisamente a que dá título ao livro, inspirou Rita Lee, “essa hippie paródica que acabou a caretice de Sampa”, a escrever " Amor e Sexo". Nunca a nebulosa semântica da dualidade sexo-amor havia sido tão gracilmente glosada, cronicada, cantada. Pudera!, afinal o amor é Bossa Nova e o sexo é carnaval.



AMOR É PROSA, SEXO É POESIA

Sábado, fui andar na praia em busca de inspiração para meu artigo de jornal. Encontro duas amigas no calçadão do Leblon:
- Teu artigo sobre amor deu o maior auê... – me diz uma delas.
- Aquele das mulheres raspadinhas também... Aliás, que você tem contra as mulheres que barbeiam as partes? – questiona a outra.
- Nada... – respondo. – Acho lindo, mas não consigo deixar de ver ali nas partes dessas moças um bigodinho sexy... não consigo evitar... Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney... Lembram um sarneyzinho vertical nas modelos nuas... Por isso, acho que vou escrever ainda sobre sexo...
Uma delas (solteira e lírica) me diz:
- Sexo e amor são a mesma coisa...
A outra (casada e prática) retruca:
- Não são a mesma coisa não...
Sim, não, sim, não, nasceu a doce polêmica ali à beira-mar. Continuei meu cooper e deixei as duas lindas discutindo e bebendo água-de-coco. E resolvi escrever sobre essa antiga dualidade: sexo e amor. Comecei perguntando a amigos e amigas. Ninguém sabe direito. As duas categorias trepam, tendendo ou para a hipocrisia ou para o cinismo; ninguém sabe onde a galinha e onde o ovo. Percebo que os mais “sutis” defendem o amor, como algo “superior”. Para os mais práticos, sexo é a única coisa concreta. Assim sendo, meto aqui minhas próprias colheres nesta sopa.
O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo isso. Sexo é contra a lei. O amor depende de nosso desejo, é uma construção que criamos. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre de tesão. O sexo é um desejo de apaziguar o amor. O amor é uma espécie de gratidão posteriori pelos prazeres do sexo.
O amor vem depois, o sexo vem antes. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do pensamento.
No sexo, o pensamento atrapalha; só as fantasias ajudam. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo só pensa em proibições: não há fantasias permitidas. O amor é um desejo de atingir a plenitude. Sexo é o desejo de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade sempre deslizante para a frente. O sexo é um desejo de acabar com a impossibilidade. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor sem sexo, claro, mas nunca gozam juntos. Amor é propriedade. Sexo é posse. Amor é a casa; sexo é invasão de domicílio. Amor é o sonho por um romântico latifúndio; já o sexo é o MST. O amor é mais narcisista, mesmo quando fala em “doação”. Sexo é mais democrático, mesmo vivendo no egoísmo. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio e veneno. Amor pode ser veneno ou remédio. Sexo também – tudo dependendo das posições adotadas.
Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do “outro”; o sexo, no mínimo, precisa de uma “mãozinha”. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até mas sozinhos, na solidão e na loucura. Sexo, não – é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. Amor muitas vezes e uma masturbação. Seco, não. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós e demora. O sexo vem dos outros e vai embora. Amor é bossa nova; sexo é carnaval.
Não somos vítimas do amor, só do sexo. “O sexo é uma selva de epiléticos” ou “O amor, se não for eterno, não era amor” (Nelson Rodrigues). O amor inventou a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. O sexo inventou a moral também do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói – quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: “Faça amor, não faça a guerra”. Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas... O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu – das cavernas do paraíso até as saunas relax for men. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provinciais do século XII e, depois, revitalizado pelo cinema americano da direita cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem – o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção. Sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controla-lo é programa-lo, como faz a indústria das sacanagens. O mercado programa nossas fantasias.
Não há saunas relax para o amor. No entanto, em todo bordel, FINGE-SE UM “AMORZINHO” PARA INICIAR. O amor está virando um “hors-d’oeuvre” para o sexo. O amor busca uma certa “grandeza”. O sexo sonha com as partes baixas. O PERIGO DO SEXO É QUE VOCÊ PODE SE APAIXONAR. O PERIGO DO AMOR É VIRAR AMIZADE. Com camisinha, há sexo seguro, MAS NÃO HÁ CAMISINHA PARA O AMOR. O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo, o sonho dos casados. Sexo precisa da novidade, da surpresa. “O grande amor só se sente no ciúme” (Proust). O grande sexo sente-se como uma tomada de poder. Amor é de direita. Sexo, de esquerda (ou não, dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta). E por aí vamos. Sexo e amor tentam mesmo é nos afastar da morte. Ou não; sei lá... e-mails de quem souber para o autor.


Arnaldo Jabor - AMOR É PROSA, SEXO É POESIA