segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Internacional Citacionismo (Viajar: As Grandes Evasões Bárbaras)


"O turismo é o grande soporífero. É um enorme conto do vigário e dá às pessoas a ideia perigosa de que existe alguma coisa interessante nas suas vidas."

"Viajar é a última fantasia que o século XX nos deixou, a ilusão de que ir a algum lado nos ajuda a reinventarmo-nos."

"Todas estas viagens? Convenhamos, são uma ilusão. Viajar de avião, toda esta coisa de Heathrow, é uma fuga colectiva da realidade. As pessoas vão até aos balcões do check-in e por uma vez nas suas vidas sabem para onde vão. Pobres bestas, está impresso nos bilhetes."

J.G.Ballard - Gente do Milénio

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Hegel e a Oração Diária do Homem Moderno



Santo Anselmo acreditava numa fé "iluminada" pelo intelecto (Fides Quaerens Intellectum), e o diálogo agónico entre Fé e Razão, Religião e Ciência - actualizado presentemente pelo pastor alemão Bento XVI - sempre foi um topos dilecto e dialéctico do discurso teológico. Mas o naturalismo da ciência moderna, depois de expulsar Deus do Cosmos, tinha remetido a sua presuntiva existência para a antecâmara do Big Bang. Mas, contrariamente à razão teológica, a razão científica sempre fez profissão de fé no credo Occamiano, que diz "não devermos multiplicar as entidades para além do necessário" (entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem), e a parcimoniosa navalha de Occam até do grau zero do espaço-tempo o desalojou. Ei-lo agora na Imprensa, lugar onde o verosímil é mais verdadeiro do que o real.

Os Evangelhos e a Teologia trouxeram a Boa Nova, mas a “oração diária do homem moderno” – a leitura do jornal, (pace,Hegel!) – acabaria por trazer a Má. Finalmente esclarecido o mais gritante caso de ausência e absent(e)ismo na História Natural. Ponto final? Reticências?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Passamento do Farsista (segundo Marx)

Nas vascas da agonia, um farsista compulsivo gritava excruciante e trágico - “ Eis que morro!”. Lembrou-se, porém, de Marx: “A história acontece como tragédia e repete-se como farsa.” Calou-se e reencarnou.

O Passamento do Frasista (segundo Borges)

Nas vascas da agonia, um frasista compulsivo ciciava a frase derradeira e imorredoira. Lembrou-se, porém, de Borges: “Salvo nas severas páginas da história, os factos memoráveis prescindem das frases memoráveis.” Calou-se e passou-se.

sábado, 2 de outubro de 2010

"Em verdade vos digo, Samuel Úria é tão bom que devia ser proibido"



" Se António fundia Braga e Nova Iorque, Samuel atravessa Dylan e Paião, Vitorino e Waits. Se Variações soube pôr mundo no Minho, Úria põe este mundo no outro, e o outro neste, e tudo em breves canções orelhudas. Mas, por favor, nada de mal-entendidos. Este artista é de sínteses, não é sintético. Isto é música muito humana, de carne e osso, verdadeira e impura, cordas, respirações, arranhões, falsetes. Um cantautor a sério a brincar com o seu tesouro. O quê, nomes, História? Bem, vamos a isso: Zeca Afonso, António Variações, Sérgio Godinho e – Samuel Úria. Sim, isso mesmo. E não, não é nenhum “por exemplo”.
(...) Em verdade vos digo, Samuel Úria é tão bom que devia ser proibido. Ele compõe, escreve, toca, canta, teatra, arranja, dispara mais rápido que qualquer sombra, faz tanto e tudo bem. Mais que bem, brilhantemente, incrivelmente, genialmente, despretensiosamente. Mas, pois, não me puxem pelo advérbio."

Jacinto Lucas Pires

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Internacional Citacionismo (Leituras da Crise)



Em 2003 Ballard publicava Millennium People e augurava a rebelião da classe média londrina, num simulacro de distopia urbana "onde os actos desprovidos de significado são os únicos que parecem ter significado".
Mas mesmo quando a rebelião estava iminente, sobejava sempre uma minúcia middle class: a que horas é que se almoça?

" As classes médias pretendem ser a âncora social, todo aquele sentido do dever e responsabilidade. Mas os cabos estão a esticar. As qualificações profissionais não valem nada - um curso de humanidades é como um diploma de origami. Quanto à segurança é inexistente. Um computador qualquer nas finanças decide que as taxas de juro sobem um ponto e eu devo ao banco outro ano de trabalho árduo."

J.G.Ballard - Gente do Milénio