quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Weird America 4 (Repudiação, Refutação, Refudiação)



Quem não aprecia as Palinadas do novel neoconservadorismo made in USA? Sarah Palin, fazendo sábio uso da máxima que diz que "não é sábio quem sabe mais do que é preciso" - mesmo sendo presuntivo candidato a candidato à Casa Branca - fundiu Refutation e Repudiation e perpetrou o neologismo Refudiation para manifestar o desacordo quanto à construção de uma mesquita perto do Ground Zero, o que, aliás, gerou um medo pânico na comunidade islâmica de Nova Iorque e concitou de imediato à recitação das 114 suratas do Corão. É claro que refudiar é muito mais severo e assertivo do que o dialógico refutar e o protestativo repudiar. Moral da história: a direita americana forceja por arranjar uma nova linguagem e novos "topoi" retóricos, mas o resultado é sempre bafiento e risível.
Não se esqueçam, pois. Dia 24 de Novembro, dia da refudiação do Governo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Internacional Citacionismo (Michel Houllebecq e a Aritmética da Dor)



Michel Houllebecq ganhou hoje o Goncourt com o romance La Carte et le Territoire, edição Flammarion. Uma citação neurasténica à bolina da actualidade. Para quem não acredita na Beatitude.

" Todos temos na cabeça uma perspectiva simples do futuro: virá um dia em que a soma dos prazeres físicos que podemos esperar da vida é inferior à soma das dores."

Michel Houllebecq - Les Particules Élémentaires

sábado, 6 de novembro de 2010

Gastrofilias (Rins Fritos Ainda Doces de Sangue)



Ter uma barriguinha quase cinquentenária a levedar no có das calças não é coisa de somenos. A sobredita carece de solicitude e desvelo. Mas nem sempre é fácil.E quem é capaz de reconhecer os perigos, as complicações e - porque não - a importância da demanda vital de um guloso professo?
Quem gosta de comer "come muito com a memória", a memória sinestésica dos pratos catedralícios, sápidas aparições, e que actualmente são quase só mera referência literária. Um mundo extingue-se, e hoje, no exílio, a minha demanda vital e a literatura trouxeram-me de novo aqui - à infância.

"Josefa era gulosa dos intestinos de galinha, que, depois de lavados e esvaziados, se enrolavam num pau fino de salgueiro e eram guisados como um acepipe."

Agustina Bessa Luís - A Alma dos Ricos


"Sabor mijão dos rins fritos ainda doces de sangue."

Vitorino Nemésio – Mau Tempo no Canal

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Weird America 3 ( Sufjan Stevens - Casimir Pulaski Day )



Sufjan Stevens é um versátil compositor e cantor americano que se propôs fazer um disco para cada um dos 50 estados americanos. O primeiro da série, “50 States Project”, foi Michigan (2003) e, em 2005, Illinois ( Come on Feel the Illinoise) entrou na lista US Heatseekers da Billboard e o seu sortilégio pairou sobre todas as listas dos melhores do ano. Ainda que o projecto “50 States Project” seja um desaire - estás doido, man! -, Sufjan Stevens já ganhou o Olimpo por Casimir Pulaski Day: a canção triste que irei trautear se o Maligno me apanhar.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Erotic Flash Fiction 6

Era uma virago sanguínea e desbocada. Ele gostava. Mas na cama ela espiritualizava-se e, amiúde, ciciava: - "Deleita-me! Deleita-me!". Ele, incrédulo e frustrado com o atalho da memória, acabava sempre por relembrar o Salmo 37:4.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Nacional Citacionismo (Dedicácias)



Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978



Sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia
mas andou na Rua da Sofia.

É inteligente, arguto, viajado
mas vive sempre com a aldeia ao lado.

Que há nestes portugueses que é como um sarro azedo,
um cheiro de vinagre ou carrascão de medo,
a que se agarram quais lapas ao Penedo

da Saudade? Não há filosofia
que salve quem andou na Rua da Sofia.

Jorge de sena - Dedicácias

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Identidade dos Indiscerníveis: Homo Oeconomicus Versus Homo Politicus



Assinale-se: os empresários portugueses do “liberal turn” têm uma atitude esquizóide perante a obesidade mórbida do grande Leviatão, o Estado: defendem a indispensável ideia de que a primeira função do estado é tornar-se dispensável, mas são useiros e vezeiros no clamor pelo beneficiozinho fiscal, o fundo perdido, a subvençãozinha providencial.

Assinale-se: os políticos portugueses do “liberal turn” têm uma atitude esquizóide perante a obesidade mórbida do grande Leviatão, o Estado: defendem a indispensável ideia de que a primeira função do estado é tornar-se dispensável, mas são useiros e vezeiros na concessão do beneficiozinho fiscal, do fundo perdido, da subvençãozinha providencial.

Para o homo politicus a política é continuação dos negócios por outros meios.

Para o homo oeconomicus o negócio é a continuação da política pelos sobreditos meios.

Aqui no terrunho, o Homo Oeconomicus e o Homo Politicus são o Dupont e Dupond da esfera pública, o Estado é (d)eles, e nem a forma do bigode permite distingui-los.