segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Dicionário Do Mofino 3
Sexo, s.m. Estado sensacional da existência humana; segundo a Vulgata, Deus terá proferido o Fiat primigénito ( Faça-se sexo! E o sexo foi feito - dixitque Deus fiat sexus et factum est sexus) e, embora tenha achado bom (Deus viu que o sexo era bom - et vidit Deus sexus quod esset bonum…), não logrou inteligir, porém, que era muito bom, o que gerou inenarráveis (dis)sabores, boa literatura e dois complexos arquetípicos Psicómicos – Édipo e Portnoy; Veríssimo disse que o sexo “tem que ser entre pessoas que se amam, ou se gostam, ou se respeitam, ou então não se conhecem mas não têm nada para fazer entre as seis e as oito” e, naturalmente, detestam estar paradas; o sexo pode ser considerado o "ginásio do amor", mas é sempre avisado fazer uma prova de esforço; Fiat!
sábado, 20 de novembro de 2010
Dicionário Do Mofino 2
Cultura Geral, s. f. Comummente definida como “aquilo que sobra depois de esquecermos tudo o que aprendemos”, a cultura geral é uma espécie de enteléquia, visível contudo a olho nu em concursos televisivos, inquéritos estivais e Diários das Sessões; ter cultura geral significa ter um módico de conhecimentos expresso na fórmula saber qualquer coisa de qualquer coisa e não ter qualquer pudor em alardeá-lo.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Dicionário Do Mofino 1
Tédio, s.m. Estado emocional amorável em que o crescendo varia na razão inversa da sobreocupação e o diminuendo , segundo Pessoa, na razão directa da falta de dinheiro; "Ter o dinheiro suficiente para ter tédio à vontade" é o desejo subido do homem de bom gosto, que procura tintar o ócio com umas tintas diletantes de cultura; o tédio é inimigo figadal do nec-otium e Humor em repreensível depreciação.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Erotic Flash Fiction 7
Ela achava que a culpa é a "margem existencial do sexo"; ele também. Mais tarde, descobriram que a largura da margem é um número ímpar maior do que 1 e menor do que 5.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Weird America 5 (Andrew Bird - Anoanimal)
A canção pop cria-se com a audição e não com a produção do som. Uma canção pop nunca está concluída e por isso a sua referencialidade é análoga à da parábola.
domingo, 14 de novembro de 2010
Slavoj Zizek (Made In China)


No Expresso, Henrique Raposo apodou-o, com liberalidade, de “Althusser do nosso tempo” e comprazeu-se nessa espécie de exprobração remissiva. Desidério Murcho, no Blog da Crítica, postou sobre Zizek e a política contemporânea a partir de uma entrevista do pensador esloveno à BBC, e os automatismos de simplificação analítica revelaram a singeleza símplice dos simples. Não fosse a escrita avisada de António Guerreiro e Zizek passaria, em Portugal, por ser o filósofo pop que “mistura marxismo com cultura pop e psicanálise”, isto é, um psicobolche seduzido pela cultura popular.
Mas Zizek pensa bem. No seu último livro publicado pela Relógio de Água, Da Tragédia à Farsa, há um capítulo azado intitulado Capitalismo com Valores Asiáticos… Na Europa, no qual Zizek, invocando Lee Quan Yew - o líder de Singapura que inventou e concretizou o chamado “capitalismo com valores asiáticos” -, sugere que esta forma autoritária de Capitalismo se tem vindo a difundir por todo o globo, e assevera o seu cepticismo em relação a uma presuntiva conaturalidade de capitalismo e democracia que, realizando o primeiro, garantiria teleologicamente o segundo. Pergunta Zizek: “E se a « combinação viciosa do knout asiático e do mercado de títulos europeu » (segundo os termos da definição que Trotski propunha da Rússia czarista) se revelasse economicamente mais eficaz do que o capitalismo liberal? E se estivéssemos perante um sinal de que a democracia, tal como a entendemos, deixou de ser condição e motor do desenvolvimento económico, passando a constituir um obstáculo para ele?”
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Confiança e Medo na Cidade (Bauman e "O Senhor do Adeus")


Figuras públicas como Rui Zink, Ricardo Sá Fernandes e Leonor Poeiras juntaram-se às cerca de duas centenas de pessoas que se concentraram no Saldanha (Lisboa) para se despedirem do "Senhor do Adeus".
Aquele acenar de mão bem como aquele sorriso pelo qual ficou conhecido João Manuel Serra, baptizado pelo povo como o "Senhor do Adeus" e que faleceu na quarta-feira, aos 79 anos, levou os lisboetas a prestar-lhe uma sentida homenagem na qual, tal como ele, disseram adeus aos inúmeros carros que por eles passavam. O objectivo final foi despedirem-se do autor desse adeus e desse sorriso gratuitos que a tantos fazia felizes. "Este está a ser o mais bonito velório a que assisti nos últimos tempos e que, provavelmente, irei assistir nos próximos", frisou, em declarações ao DN o escritor Rui Zink, que conhecia João Manuel Serra das inúmeras passagens que fazia a pé pelo Saldanha.
Público 12/11/10
O que é uma cidade? A resposta também pode ser a de Zygmunt Bauman: uma cidade é um sítio “onde os desconhecidos convivem numa estreita proximidade sem deixarem de ser desconhecidos”. Os desconhecidos, na sua diversidade multitudinária, geram um estranhamento suspeitoso, na medida em que “albergam intenções, pensamentos e modos de agir perante situações comuns que nos são desconhecidas” e, diremos nós, ameaçadoramente impreditíveis. Na medida em que os desconhecidos são “a personificação do risco” citadino, o hodierno melting pot urbano pode gerar uma “paranóia mixofóbica” adversa à variabilidade dos tipos humanos existentes nas cidades.
Porém, diz-nos Bauman, a cidade é ambivalente. Se o estranhamento do desconhecido ocorre sob o signo do risco e da suspeita, também é verdade que, intermitentemente, ocorre sob o signo da atracção e chega a fórmulas de conciliação e a apaziguadores modi convivendi. Mixofilia e Mixofobia coexistem em todas as cidades.
Subscrever:
Mensagens (Atom)