sexta-feira, 3 de junho de 2011

Literatura & Eleições



Agora que os aparelhos partidários se preparam para os delíquios e efusões pós-eleitorais, o que diz a literatura, essa grande particularizadora, sobre a generalizadora política, para usarmos a oposição antitética de Roth em Casei Com Uma Comunista?

Recentemente, o crítico literário António Guerreiro citava Bourdieu e o paradoxo da objectivação para denotar a atitude que consiste em olhar de fora, como um objecto, as pessoas, as coisas da vida, a vida intelectual, suscitando a revolta das pessoas assim objectivadas.
A descrição objectiva das peripécias peripatéticas de um candidato em campanha, pari passu, aparentemente neutra, pode ser um inventário cínico, cómico, com eficiência crítica considerável. A política e a encenação da gravitas dos seus líderes, a retórica alambicada, o jantarismo, o pathos patético do patego comicieiro, têm um potencial cómico que, quando objectivado e descrito, permite um distanciamento crítico não despiciendo. Poderíamos concitar aqui, como exemplo de objectivação literária desta ambiência política, uma figura como Fialho de Almeida, o Pontífice de Café, mas apraz-nos mais lembrar Agustina e a sua visão panóptica sobre o grande e o pequeno.


O país estava a funcionar sob a fresca maneira dos politocratas. Já não era uma arte confidencial, era um desempenho de palco, com maquilhagem, provas de alfaiate recomendado, cores conforme o conselho da televisão ...
(...) Desprezavam o aparelho partidário, sempre à beira do stress e que usa as sondagens como quem usa calmantes.


Agustina Bessa Luís

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Leituras Eleitorais - Pimenta e a Retórica Eleitoral

A retórica dos políticos é fácil. Quando perdem agradecem aos que confiaram neles. Quando ganham, agradecem aos que confiaram neles. Nenhum agradece aos que mereciam: os que desconfiaram deles.

Alberto Pimenta - Deusas Ex Machina

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Dicionário Do Mofino 34

Deus, s.m. O mais preocupante caso de absenteísmo; amiúde, este tipo de absenteísmo encanita os economistas católicos, em geral, os opudeístas e o abominável César das Neves, em particular.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sondagem e Representação Política


Num artigo de 1981 intitulado « La Représentation Politique », Bourdieu afirma que os políticos produzem e apresentam instrumentos de percepção e expressão do mundo social, conflituando discursivamente pela posse do monopólio da visão legítima da sociedade.
Desta ideia podemos, com Bourdieu, extrair dois corolários:
- Os políticos detêm o quase monopólio da produção destes instrumentos e forcejam por apresentá-los tutelarmente fora do campo político numa lógica da oferta e da procura;
- O cidadão é reduzido ao estatuto de consumidor destas visões, e a sua adesão é panopticamente visada por elas através de uma instância que lhes dá valor de verdade - as sondagens.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Anna Calvi Attic Sessions 4 - Joan Of Arc




A inteligência, o romance e a paixão segundo Brian Eno. E aposto que o Cohen de Songs of Love and Hate também não ficará indiferente.

domingo, 8 de maio de 2011

Tempo de Reler Saramago - Oração Pelas Privatizações

Oração pelas Privatizações

Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.

José Saramago – Cadernos de Lanzarote - Diário III – pag. 148

sábado, 7 de maio de 2011

Dicionário Do Mofino 33

Economia, s.f. Ciência que estuda a criação e a distribuição da cupidez humana; segundo Hobsbawm, a economia neoclássica foi tomando cada vez mais o lugar da Teologia, e passou a procurar as regularidades que regem a produção e distribuição de bens, o mesmo é dizer, e semelhando a Teologia, lobrigar um inexistente gato preto num quarto às escuras; embora o Governo e os economistas o ignorem, e a crer em homem arguto, a economia depende tanto dos economistas como o tempo dos meteorologistas, o que, em boa verdade, não augura nada de bom.