quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Economia da salvação


A economia da salvação do ethos protestante (da virtude laboriosa à beatitude graciosa), dizia  Dahrendorf, teria deixado há muito de ser tão útil como costumava ser. Sem o hedonismo das massas – sem as pessoas a consumir antes de perceberem se ganharam o que gastam – a economia moderna ficaria num estado de depressão permanente. Os antigos valores da satisfação adiada da classe média, de poupar hoje para destruir amanhã, cederam o lugar a valores de gratificação antecipada, de gozar a vida hoje e pagar amanhã.
Mas o rigorismo pietista do ethos protestante resmoneia a dívida-culpa (Schuld) e impõe a sua economia da salvação. Economia sempre foi um conceito teológico.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sex Files/ Ovídio e a Arte da Infidelidade



Javier Marias, fescenino, definiu a fidelidade como a constância e a exclusividade com que um determinado sexo penetra ou é penetrado por outro igualmente determinado, ou se abstém de ser penetrado ou de penetrar noutros. Ora, se infidelidade não é mera cosa mentale, a sua ocultação  é cosa corporale. Escreveu Ovídio Na Ars Amatoria:

   As tuas aventuras, por melhor que as escondas, se vierem, no entanto,
                                                                                            a ser descobertas,
                  ainda que as descubram, tu, mesmo assim, nega-as até ao fim;
       nesse caso, não sejas submisso nem mais delicado do que tens por
                                                                                                costume;
                              tais atitudes são sinal evidente de sentimentos de culpa.
Pelo contrário, não poupes o teu corpo; toda a paz reside, apenas, nele:
               é na cama que tens de desmentir ter havido, antes, outra Vénus.


Ovídio, Ars, 2.409 - 414

(Tradução de Carlos Ascenso André)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dicionário do Mofino 51

Pieguismo, s.m. Escola filosófica que refutou o Estoicismo (o Estoicismo defendia a apatheia perante o infortúnio próprio, o Pieguismo perante o alheio); na história bíblica, Job é o modelo profético da pieguice: depois de consumida a sua pele, despojado dos filhos e dos servos e o seu hálito ser ter tornado intolerável à esposa, quedou-se no queixume como símplice funcionário público; doença afecto-contagiosa, pandémica nas tertúlias da hipocondria e outros areópagos do amor próprio; tipo de piedade em que o merecedor tem grande merecimento e pouco discernimento; depois do Pieguismo impetrante do Livro de Job, só o Pieguismo febricitante de António Lobo Antunes fez jus à ortodoxia desta escola de pensamento.


Pachos na testa, terço na mão, 
Uma botija, chá de limão, 
Zaragatoas, vinho com mel, 
Três aspirinas, creme na pele 
Grito de medo, chamo a mulher. 
Ai Lurdes, que vou morrer. 
Mede-me a febre, olha-me a goela, 
Cala os miúdos, fecha a janela, 
Não quero canja, nem a salada, 
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada. 
Se tu sonhasses como me sinto, 
Já vejo a morte, nunca te minto, 
Já vejo o inferno, chamas, diabos, 
anjos estranhos, cornos e rabos, 
Vejo demónios nas suas danças, 
Tigres sem listras, bodes sem tranças, 
Choros de coruja, risos de grilo, 
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo.
Não é o pingo de uma torneira, 
Põe-me a Santinha à cabeceira, 
Compõe-me a colcha, 
Fala ao prior, 
Pousa o Jesus no cobertor. 
Chama o Doutor, passa a chamada, 
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada. 
Faz-me tisana e pão-de-ló, 
Não te levantes, que fico só, 
Aqui sozinho a apodrecer, 
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer.

(António Lobo Antunes)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Labor perpétuo

Toni Negri cunhou o conceito trabalho cognitivo para se referir às transformações do trabalho numa rede em que os elementos fundamentais relevam, essencialmente, da proficiência do conhecimento e da capacidade de organizar a cooperação, permitindo pensar o homo laborans fora da relação binária "trabalho/objecto criado" e reflectir sobre a lógica dos seus efeitos. Por um lado, a hegemonia do trabalho cognitivo implica uma mobilidade e flexibilidade generalizadas; por outro, a sua progressiva imaterialização abriu uma brecha que ameaça tudo sobrelevar. As fronteiras entre a casa e o trabalho, a domesticidade e a empresa são difíceis de estabelecer, e a vida devém aquilo que fazemos trabalhar numa gigantesca rede de labor perpétuo - labor perpétuo a que somos instados pelo mail recebido no fim-de-semana, o labor perpétuo do computador, do tele-trabalho e da compulsão ergomaníaca dos smartphones e dos dispositivos ergonómicos da omnipresença do trabalho que, opressivamente, frustram a possibilidade de evasão.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Dicionário do Mofino 50

Navalha, s.f. Artefacto de cutelaria que, nas altercações, é o prolongamento natural de uma língua afiada (G. C. Lichtenberg usou uma faca sem lâmina à qual faltava o cabo, mas consta que nunca ganhou uma polémica, tendo-se abalançado-se a género mais monológico - o aforismo). Nas discussões filosóficas, a de Ockham serve para fatiar a vis metaphysica e teológica em fatias mastigáveis, embora, tal como o atiçador de Wittgenstein, também possa ser usada como argumento ad baculum e cortar o pio a muito burro zornão.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dicionário do Mofino 49


Tentação, s.f. Glosando Wilde, aquilo a que nunca devemos resistir - a menos que sejamos tentados, diz este escriba; desde o pecadilho edénico que tropeçamos na virtude e caímos na tentação. O inverso já foi tentado pela santidade, mas violava a Terceira lei de Newton e derruíu ( A toda a tentação há sempre uma tentação oposta e de igual intensidade: ou as tentações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas na mesma direcção); a da carne apoquenta sobremaneira puritanos e vegetarianos: furtando-se à sua tirania nos verdores da juventude, acabam por ser evitados por ela na velhice; A sujeição à tentação define dois tipos de homens: os que caem na tentação e ficam arrependidos; os que não caem e arrependidos ficam.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Elogio do dinheirinho


É tão importante e feio falar sobre o dinheiro: o que embolsamos ou não embolsamos, o que nos abunda ou rareia. É tão loquaz e claro o vil metal, agora que alguns ascetas concitam à frugalidade e, hipócrita e cristãmente, fazem apólogos à pobreza. Relembremos com Pascal Bruckner o que todos sabem: Nada de mais feio, de mais aberrante, do que o elogio da pobreza feito por alguns doutrinadores cristãos, como se ela em si mesma fosse dotada de uma virtude superior. A pobreza sofrida é odiosa para quem acumula privações e humilhações, reforça as dificuldades pela vergonha. Em todas as circunstâncias o dinheiro deve ser classificado entre os “preferíveis” (Séneca), do qual é permitido dispor se o destino vos colocar em posição de o ter.
Ninguém condenou a sabedoria à pobreza, recordarão, adossados à sageza antiga de Séneca, os conselheiros da EDP. Isto, se a fortuna os colocou em posição de o ler.