Pieguismo, s.m. Escola filosófica que refutou o Estoicismo (o Estoicismo defendia a
apatheia perante o infortúnio próprio, o Pieguismo perante o alheio); na história bíblica, Job é o modelo profético da pieguice: depois de consumida a sua pele, despojado dos filhos e dos servos e o seu hálito ser ter tornado intolerável à esposa, quedou-se no queixume como símplice funcionário público; doença afecto-contagiosa, pandémica nas tertúlias da hipocondria e outros areópagos do amor próprio; tipo de piedade em que o merecedor tem grande merecimento e pouco discernimento; depois do Pieguismo impetrante do Livro de Job, só o Pieguismo febricitante de António Lobo Antunes fez jus à ortodoxia desta escola de pensamento.
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de
limão,
Zaragatoas, vinho
com mel,
Três aspirinas,
creme na pele
Grito de medo,
chamo a mulher.
Ai Lurdes, que vou
morrer.
Mede-me a febre,
olha-me a goela,
Cala os miúdos,
fecha a janela,
Não quero canja,
nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes,
não vales nada.
Se tu sonhasses
como me sinto,
Já vejo a morte,
nunca te minto,
Já vejo o inferno,
chamas, diabos,
anjos estranhos,
cornos e rabos,
Vejo demónios nas
suas danças,
Tigres sem listras,
bodes sem tranças,
Choros de coruja,
risos de grilo,
Ai Lurdes, Lurdes,
fica comigo.
Não é o pingo de
uma torneira,
Põe-me a Santinha à
cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no
cobertor.
Chama o Doutor,
passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes,
nem dás por nada.
Faz-me tisana e
pão-de-ló,
Não te levantes,
que fico só,
Aqui sozinho a
apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes,
que vou morrer.
(António Lobo Antunes)